Contemplando o fim: as profecias de John N. Gray

Por Igor de C. e Souza Câmara

Straw Dogs (2002)

The Silence of Animals (2013)

A filosofia contemporânea escrita em língua inglesa não tem grande popularidade em solos brasileiros. Enquanto esse cenário permanecer assim, John N. Gray seguirá conhecido apenas por sua crítica virulenta ao filósofo popstar esloveno Slavoj Žižek, As Visões Violentas de Žižek, traduzido e publicado no número 71 revista Piauí. Talvez, também, por aqueles que o confundem com seu homônimo: o autor do best-seller Homens são de Marte, Mulheres são de Vênus. Apesar disso, até data recente esse anonimato não lhe era exclusivo nos trópicos. A despeito de uma sólida carreira acadêmica – o filósofo se aposentou como professor emérito da conceituada London School of Economics – e dos comentários iluminadores sobre pensadores de extração liberal, de Mill à Berlin, a obra de Gray parecia ser restritiva o bastante para circular apenas nos corredores universitários. Suas incursões em terrenos mais amplos pareciam não se conformar ao sucesso. Seu False Dawn: The Delusions of Global Capitalism, publicado em 1998, onde Gray jogava com a ideia de uma crise econômica, partindo da atual conjuntura do mercado financeiro, recebeu 99 resenhas negativas, num universo de uma centena. Evidentemente, em 2008, a obra ganhou olhares mais benévolos, e o telefone de Gray voltou a tocar. O filósofo ganhava alguma notoriedade como visionário: a crise financeira se somava a outras previsões, como a derrocada da União Soviética e a emergência da Al-Qaeda. Mas foi antes disso, em 2002, que sua situação de intelectual desconhecido sofreu uma mudança radical e o filósofo subiu aos palanques do debate público. Nesse ano, Gray publicou Straw Dogs (Granta Books ou Cachorros de Palha, Editora Record), livro que figurou nas listas de melhores do ano em um número razoável de periódicos, ao mesmo tempo que atraiu críticas mordazes em uma proporção também razoável.

ilustração contemplando o fim 1

Se o nome soava enigmático, o subtítulo, Reflexões Sobre Humanos e Outros Animais, não dava grande contribuição. O livro, enxuto, trazia uma série de reflexões-pílula, divididas em 6 capítulos, sobre uma miríade de temas, de epistemologia à política, de filosofia ao ambientalismo. As fontes intelectuais, pelas quais os temas se articulam, também são numerosas e ecléticas, indo de Schopenhauer – o pessimista por quem Gray nutre uma óbvia simpatia – ao sociobiólogo Edward O. Wilson, com um breve interlúdio em Fernando Pessoa. A forma da prosa chama atenção: se alguma objeção pode ser levantada contra o filósofo, certamente não é aquela de falta de clareza e simplicidade, virtudes às vezes raras no meio intelectual. As frases, curtas e objetivas, não fazem rodeios, e espantam pela potencial explosivo – aqui, Gray se assemelha mais ao estilo furioso de Nietzsche. O fio condutor que dá o tom da obra, aparentemente uma colcha de retalhos, é a crítica à tradição de pensamento cuja marca definidora é a ideia de progresso. Ideia complexa, possuidora de inúmeros rebentos, até mesmo os aparentemente antagônicos, como o cristianismo e o ateísmo secular.

Nós encampamos a ideia, mais fantástica que a de um Deus que ressuscitava mortos, diz Gray, de que há algo como “a humanidade”, e que ela atravessa os séculos numa caminhada progressiva. Lenta e gradual, talvez, mas inegavelmente marchando em direção à melhora. Essa perspectiva, argumentará ele, contém muitos erros. Um deles é depositar uma fé mágica no ser humano, um animal sem grande atributo que os distingua dos outros dentro de um sistema supostamente materialista. Inúmeras vezes se bate na tecla de que, afinal, não somos tão especiais assim.

No terreno amplo da política e da ética, quando há avanços, eles são tão frágeis quanto uma taça de cristal – a menor perturbação sonora pode ser suficiente para detonar as fundações do edifício. Não é preciso voltar ao início do século XX, onde o desenvolvimento da cultura, das artes, das ciências parecia permitir apenas as previsões mais otimistas e que, no entanto, serviu de prelúdio para algumas das maiores atrocidades que a história presenciou. Sem apelar para o exemplo óbvio, bastaria lembrar a ressurgência admitida e institucionalizada da tortura no contexto da cruzada contra o terrorismo. Ou que, conforme a crise econômica assola a Europa, a perseguição às minorias volta a circular como moeda corrente, surgem agremiações ultranacionalistas etc. A barbárie, dirá Gray, espreita a civilização a cada esquina.

Isso não quer dizer que não haja progresso em alguma esfera. Nossa ciência é melhor – mais preditiva e explicativa – que a ciência de épocas passadas; com o avanço inegável da técnica, muitas das tarefas humanas se tornaram extremamente mais leves e, por vezes, o que antes era impossível se tornou possível. No entanto, o animal permanece largamente o mesmo. Para cada uso positivo de um avanço da técnica, há pelo menos uma contraparte negativa. Bastaria evocar o exemplo óbvio da tecnologia de ponta empregada nos campos de concentração nazistas para alcançar essa conclusão ou, quem sabe, o potencial destrutivo da bomba atômica. A própria agricultura, que definiu boa parte do que o homem é atualmente, já trouxe um sem número de infortúnios, o que levou Jared Diamond a chamá-la de o pior erro da humanidade. O carro, projetado para incrementar a mobilidade humana, é fonte de boa parte dos problemas relacionados à mobilidade. Um americano médio se locomove, de carro, em uma velocidade média de menos de cinco milhas por hora: “não muito mais do que alguém poderia percorrer a pé”, nota o filósofo, para depois perguntar: “Mas o que é mais importante hoje: o uso de carros como meio de transporte, ou seu uso como expressão de nossos desejos inconscientes por liberdade pessoal, liberação sexual e a libertação final por morte súbita?” Conclui a reflexão com a sentença amarga: “O progresso técnico deixa apenas um problema irresolvido: a fragilidade da natureza humana. Infelizmente, esse problema é insolúvel.” Apesar disso, John Gray não é, de forma alguma, um ludita contemporâneo. Sua defesa de soluções algumas técnicas para problemas humanos é o que o separa em definitivo dos partidos verdes, não obstante sua simpatia pelas causas ligadas aos problemas ambientais.

As considerações filosóficas de Gray também são amplas. Seguindo o estilo do resto de seus comentários – curtos e grossos -, os leitores habituais de filosofia talvez torçam o nariz para as leituras, forçosamente superficiais, que ele faz de seus pares. Wittgenstein merece um comentário de duas páginas, de onde sai como idealista, e ponto. A totalidade desse comentário é baseada em sua afirmação sobre a fala dos leões, e passa ao largo de qualquer consideração sobre a variedade de sua obra. Como esse, há outros problemas similares em relação a outros filósofos, por exemplo Heiddeger e Nietzsche. Além da história da filosofia, conforme apontado por Thomas Nagel em uma resenha crítica, alguns problemas filosóficos de grande complexidade (o exemplo em questão era a relação entre linguagem e mundo) recebem o mesmo tratamento demasiado ligeiro. Mas, se isso é um defeito, não parece ser suficiente para desqualificar o livro. Talvez, a falta de rigor e precisão históricas sejam os sacrifícios necessários para  alcançar originalidade e generalidade. E, de todo e qualquer caso, interpretar mal parece uma constante para os bons filósofos: o mesmo Heidegger supostamente não entendeu Nietzsche; também Wittgenstein não entendeu Agostinho.

Publicado no início do ano, The Silence of Animals (Farrar, Straus and Giroux, ainda sem tradução) dá continuidade às reflexões de Straw Dogs. Sobre Progresso e Outros Mitos Modernos, diz o subtítulo. A sequência segue a fórmula natural do primeiro – capítulos gerais, reflexões pontuais e agressivas, erudição eclética – e lhe provê um anexo às suas discussões, tornando o tom levemente mais positivo e introspectivo. Aqui, as referências bibliográficas são ainda mais variadas e surpreendentes. Há uma grande profusão de poesia, romances e relatos de viagens. Entre elas, a fantástica história de J. A. Baker, que dedicou uma década de sua vida a acompanhar o voo do falcão peregrino; ou Patrick Leigh Fermor, ex-combatente que percorreu mosteiros abandonados pelo interior da França. Esse é, ao mesmo tempo, o ponto fraco e o calcanhar de Aquiles dessa nova empreitada. Por um lado, a grande variedade de histórias tingem a prosa abstrata e filosófica de Gray. Esses matizes contribuem não só para tornar a leitura mais agradável, mas também para enriquecer suas teses, e fornecem exemplos vivos do que ele imagina. Por outro lado, alguns pontos do edifício parecem se sustentar quase que exclusivamente nesses relatos. Algumas passagens tem um Gray mais editor, selecionando trechos adequados e tecendo breves comentários, do que autor efetivo. Embora isso não seja um mal em si, é verdade que, por serem assim, alguns dos capítulos transmitem um sentimento de incompletude. Alguns comentários mereciam mais linhas antes de serem subitamente interrompidos.

A ideia que dá título ao livro, o silêncio dos animais, é um desses casos. Uma exploração interessante e original do significado do silêncio para o humano e para os demais animais, ela parece acabar antes do que deveria, e deixa mais sugestões do que pontos finais. O que é uma pena. A temática se insere no esteio do que parece ser o eixo do livro: a defesa de um misticismo – uma atitude mística – sem Deus e cujo coração é a contemplação. Gray percorre uma série de autores e ideias, não para definir rigidamente os conceitos, mas para sugerir os contornos de uma forma de vida que abandonou a busca obsessiva pelo sentido, entendido como conforto metafísico, e, no entanto, permanece rica e estimulante. Apesar disso, seu esforço permanece majoritariamente destrutivo, e é justamente aí onde mais se notam as lacunas que assaltam o livro.

O filósofo canadense Charles Taylor comenta, no documentário Being in the World, o sentimento de ambivalência que muitos tem em relação ao mundo contemporâneo. Algum mal-estar é repelido pelo imperativo moral de reconhecer o progresso – sobretudo material, mas também de outras esferas – que a humanidade vem atravessando. John Gray se recusa a recalcar esse sentimento. Suas teses não são de fácil aceitação; nem todos seus argumentos resistem ao escrutínio do cético; os resultados de algumas de suas enunciações não são palatáveis. Apesar disso, seu livro é inteligente e bem articulado o suficiente para fazer surgir a fagulha do pensamento – não só no leitor habitual de filosofia, como no público geral. E isso não é pouco.

Setembro/outubro de 2013

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: