Jornalismo intelectual e engajado

Por Pedro Zambarda

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O escritor franco-argelino Albert Camus é conhecido por um livro chamado O Estrangeiro, lançado em 1942 e transformado em um sucesso nos círculos de intelectuais em Paris. No entanto, além de escritor, Camus tem um lado menos popular, mas igualmente importante em sua trajetória: foi editorialista de jornal clandestino da Resistência Francesa, escrevendo textos de esquerda.

Em seus manuscritos, evoca duas palavras que nossa imprensa contemporânea vive esquecendo, deliberadamente: engajamento e inteligência.

Camus escreveu em dois jornais na França, quando deixou sua pátria-mãe, a Argélia. Foi redator-chefe do Combat, entre 1944 e 1947, redigindo textos que descreveram o sofrimento de Paris diante da República de Vichy, um governo que se curvou aos anseios de Adolf Hitler e colocou franceses contra franceses. O papel de Albert Camus era fornecer um panorama das notícias do front da Resistência e encorajar a França com engajamento formado contra os invasores da Alemanha. E essa iniciativa de assumir uma posição política clara casou com os ideais do socialismo e do comunismo da época.

A verdade é que Camus não seria o jornalista de esquerda que foi se não tivesse sido acolhido e divulgado por Jean-Paul Sartre, o filósofo existencialista que o colocou no circuito intelectual francês.

O segundo jornal em que ele escreveu, como editorialista, foi o L’Express, entre 1955 e 1956, tempo de ascensão do Le Monde. Neste período, sua carreira estava completamente transformada: ele tinha rompido com Sartre após a publicação de O Homem Revoltado, um livro que critica alguns pressupostos do comunismo e os compara com um “messianismo cristão”. Albert Camus também estava pressionado a tomar uma decisão quanto às batalhas em sua terra natal, a subdesenvolvida Argélia, mas decidiu por manter uma posição pacifista, sem apoiar atos de revolta. Foi marcado, até sua morte num acidente de carro em 1960, como um pensador oposto à Jean-Paul Sartre, que decidiu apoiar as revoluções e as guerrilhas de esquerda ao redor do mundo.

Por essas histórias, que muitas vezes não são tão bem divulgadas, Albert Camus no jornalismo é um assunto que merece destaque e um estudo maior de quem se interessa ou está na mídia. O próprio Camus, em seus editoriais, também fez reflexões preciosas sobre a função do repórter e do homem de imprensa.

“Jornalismo não é reconhecido como escola de perfeição. Pode ser necessária uma centena de matérias de jornal para fundamentar uma única ideia claramente. Mas essa ideia pode esclarecer outras, provida da mesma objetividade que foi feita na sua formulação, empregada na investigação de suas implicações”, disse Camus, em um editorial de Combat. Muitos de seus textos estão reunidos em uma edição organizada pela francesa Jacqueline Levi-Valensi. Há uma tradução, do francês para o inglês, organizada por Arthur Goldhammer pela Pricetown University.

Em outro trecho, Albert Camus fala especificamente sobre engajamento no jornalismo, que era próprio na Segunda Guerra Mundial e tinha menos interesses puramente econômicos: “Jornalismo clandestino é honrável porque é uma prova de independência, porque envolve um risco. É bom, é saudável, tudo o que tem a ver com os atuais eventos políticos tem se tornado perigoso. Se há algo que nós não queremos ver novamente, é a proteção da impunidade por trás de quem com um comportamento tão covarde e com muitas maquinações que uma vez tiveram refúgio”.

Com esses dois trechos, é possível ver que Camus enxergava uma inteligência no jornalismo, mesmo que ele se construa aos poucos, e muitas vezes repleto de imperfeições em vários artigos e reportagens. E não é à toa que o escritor pied-noir enxerga a imprensa desta maneira, porque os jornais franceses cresceram promovendo intelectuais como Honoré Balzac e André Gide. É muito diferente do jornalismo profissionalizado e hard news dos Estados Unidos, onde as figuras de Tom Wolfe e Gay Talese provocaram uma transformação por apenas inserirem alguns elementos literários no texto.

Hoje, a imprensa de Camus não existe mais, principalmente com a massificação da cópia do modelo americano em grandes veículos. Resiste apenas em alguns repórteres e articulistas com senso crítico forte e uma grande coerência de textos e ideias. Um blogueiro da agência Reuters, chamado Jack Shafer, acredita que parte da imprensa ideal para Albert Camus, com análises em tempo real, existe principalmente na internet, em sites que comentam notícias.

O jornalista e editor brasileiro Cláudio Abramo, que trabalhava no Estado de S.Paulo, teve a chance de entrevistar Albert Camus em agosto de 1949. A conversa, em uma coletiva de imprensa, tratou tanto sobre a carreira literária do escritor quanto sobre a política. Camus não estabeleceria esta ponte entre assuntos se não tivesse sido jornalista. E o intelectual fez uma análise interessante sobre seu desempenho como crítica de imprensa: “Não julgo nada desesperado, nem mesmo o terrorismo. A propaganda, as ideologias tornaram abstratas as relações humanas. Cabe-nos individualmente torná-las novamente concretas”, disse Camus no texto de Abramo.

Devemos então ter esperança com o jornalismo online? Não sabemos, mas com as recentes crises de demissões na grande imprensa, não custa resgatar valores importantes que os jornais não se recordam direito, ou utilizam de maneira indevida: engajamento e inteligência.

Sobre o autor

Pedro Zambarda

É jornalista, assessor de imprensa e comunicador. Pesquisa a carreira literária e jornalística de Albert Camus desde 2006. É dono do site www.albertcamus.com.br, que aceita colaborações. Atualmente, está estudando Filosofia na FFLCH-USP.

Setembro/outubro de 2013

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