O que há de belo nas madrugadas de inverno

Por Rafael Lauro

2 horas da manhã e um frio de doer os ossos. Deito na cama e rapidamente me enfio debaixo das cobertas. Piorou! Os lençóis, gelados como a neve, fazem meu corpo estremecer. Encolho-me. Imóvel, sinto o calor chegar. Os músculos começam a relaxar, um sorriso se esboça. Aliviado, arrisco sair da posição fetal à qual eu tinha me recolhido. Estico lentamente as pernas, como continua frio lá embaixo! Forço-me a ocupar todo o espaço da cama. O calor se dilui por debaixo das cobertas e depois volta a se intensificar. Estabelece-se o equilíbrio, corpo quente e confortável, que alegria! Como gosto de todo este processo.

Penso: eu estava com frio, eu desejava o cobertor! Lembro-me dos momentos de angústia em que algo parecia faltar. Precisei satisfazer meu desejo com um caloroso edredom. Certo? Errado! As cobertas, como a experiência mostrou, não produzem calor nenhum. O que meu corpo queria então? Por que assumi como o objeto do meu desejo um amontoado de panos grossos?

Meu corpo, tal qual máquina, está disposto sempre a produzir. Dispus-me então a criar um novo arranjo, busquei uma associação para potencializar as minhas próprias capacidades. Meu desejo era minha vontade de potência. Através do encontro com o objeto, investi na minha capacidade de gerar calor e, de fato, o calor transbordou-me.

Não há falta nem objeto do desejo, pois não é possível preencher o espaço que não está vazio. O corpo tem plena capacidade de produzir aquilo que lhe falta, contanto que não lhe inventem demandas ideais. Ao tomar o desejo por falta, distanciamos nosso corpo daquilo que ele pode, de sua potência. Não nos falta nada. Nosso desejo é movimento, é o andar por um caminho permeado de encontros, agenciamentos e arranjos. Eu poderia ter feito uma fogueira e tomado uma generosa dose de conhaque ou quem sabe poderia ter encontrado outro corpo para produzir o calor junto ao meu. São sempre belas as possibilidades de se potencializar.

 

Setembro/outubro de 2013

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