Pensar a organização: lições de junho

Por João Pedro Bueno e Mariana Luppi

“Pondo-se e repondo-se, desde 1964, como politicizadora da totalidade, a oposição no Brasil tem colhido sua subsunção, voluntária ou involuntária, ao diapasão das perspectivas governistas”

J. Chasin

ilustração pensar a organização 1

O vislumbre quase alucinatório de um ressurgimento de processos de luta popular durante o que acabou ficando conhecido como “jornadas de junho” – iniciadas com as revindicações por revogação do aumento da tarifa dos transportes públicos – colocou diante da esquerda a clara necessidade de retomar o velho debate a respeito dos instrumentos de luta e organização.

Movimentos massivos tendem a ter esse efeito: por um lado reacendem nossas esperanças e confirmam nossas avaliações de que a crise estrutural que acomete esta sociedade produz uma profunda insatisfação no povo, e que os mais afetados pelas condições desumanas e desumanizantes da vida sob o capitalismo não se calarão diante delas por muito tempo. Por outro, via de regra, colocam em xeque as preconcepções estratégicas e táticas da esquerda, trazem à cena do enfrentamento político novas direções e setores imprevisíveis e inexperientes da juventude e/ou da classe trabalhadora, tirando-nos do estado frustrante porém confortável do movimento em períodos de calmaria, em que não precisávamos questionar o sentido, a necessidade e o caráter de nossas organizações e métodos de luta e formação de consciência.

O rechaço às formas tradicionais – partido, sindicato – ficou explícito de várias maneiras, de modo brando e mais indireto no início, e mais direto e agressivo depois. Os métodos de luta convencionais que estas organizações adotariam em momentos como este foram claramente suplantados por outros surgidos muito mais da espontaneidade das massas e da proeminência de “direções” e influências atípicas no movimento, como o MPL, grupos anarquistas e setores que adotam táticas coletivas radicalizadas sem buscar se inserir em qualquer organização de caráter político – como a tática de black block, tão polêmica ultimamente na grande mídia, mas que já aparecia desde os primeiros atos contra o aumento. Por fim, as tais massas – ou parte delas – se viraram num dado momento contra todos nós, e mostraram sua face ideológica, por vezes abertamente reacionária, tornando patente que, se a relação de forças entre nós e os detentores do poder mudou substancialmente com o fato do “povo na rua”, o processo de consciência está muito aquém do que gostaríamos para se expressar num projeto autêntico de transformação da sociedade. Precisamos sim, então, questionar e analisar os meios, os instrumentos, para entender o que se passa, o que pode estar errado e o que precisa mudar para que possamos repor a importância e o sentido fundamentais dos movimentos sociais, sindicatos e partidos e sua centralidade no movimento de massas – se é que isso ainda é possível ou mesmo desejável (há quem diga que as formas tradicionais estão superadas…). Não queremos aqui apresentar respostas definitivas; apenas gostaríamos de contribuir com esta análise, e sugerir algumas questões.

Vejamos, pois, as diferenças e relações entre os três tipos de organização (movimentos sociais, sindicatos e partidos):

– Os movimentos sociais buscam em primeiro plano o aprofundamento de pautas específicas. No caso do MPL – protagonista nos últimos processos-, a pauta privilegiada são os transportes, mas temos importantes movimentos que fazem outras reivindicações, de forma parcializada, como o MST, o MTST, além mesmo do movimento negro, feminista e LGBTT, com suas especificidades e diferenças pontuais.  A estrutura dessas organizações é adequada a suas necessidades: é horizontal, ou seja, prescinde de líderes, o que permite maior democracia interna e formulação de pautas específicas nos locais autônomos. A sua autonomia em relação à institucionalidade, por princípio,  contribui para a possibilidade desse tipo de estrutura, em que não se estabelecem hierarquias rígidas e centralizadas entre os membros.

– Já as tarefas dos sindicatos são outras, o que se reflete em sua forma de organização. Neles, a unidade entre seus membros baseia-se diretamente na exploração do trabalho, no conflito econômico. O sindicato está sempre em busca de negociar com o patrão (e, em alguns casos, com o governo) as melhores condições de trabalho para sua categoria – ou seja, vai tratar de reajustes, combater demissões, negociar planos de carreira, discutir reestruturações. Esta é sua importância: servir como instrumento de luta e organização da classe trabalhadora a partir de suas necessidades imediatas. Mas em termos de estrutura, nesse caso, faz-se necessária em geral uma relação de representação, por meio de uma diretoria, eleita em urnas e/ou assembleias periodicamente (salvo raras exceções localizadas de lutas sindicais autogestionárias, cuja generalização só é possível, como vem demonstrando a história, em situações diretamente revolucionárias, na passagem da forma sindicato às formas de comitês de fábrica e conselhos operários).

– Se os movimentos sociais, então, tratam de pautas específicas em geral relacionadas a formas de opressão e controle social, e os sindicatos atentam à exploração econômica de categorias específicas, a esfera de atuação estritamente política aparece como responsabilidade dos partidos. Essas organizações buscam relacionar-se com o poder político estabelecido, seja disputando-o, seja buscando (de forma mais ou menos radical) sua transformação. Reconduzem, assim, tanto os problemas especificamente econômicos quanto as pautas específicas sociais à politicidade, ao caráter geral do poder político. Ora, sendo esse poder político, embora sob aparência de certa fragmentação, bastante centralizado, i.e., voltado para os interesses da classe dominante, é compreensível que uma resposta que vise atingi-lo deva apresentar atuação centralizada nos diversos locais do país, objetivos comuns claramente definidos e um programa geral para a ação – o que leva, necessariamente, a uma estrutura organizativa mais hierarquizada, com mais instâncias de decisão.

Nenhuma dessas esferas, porém, existe isolada, e a relação entre elas é fundamental para uma intervenção coerente na realidade. Mesmo tratando de pautas específicas, os movimentos sociais demonstram capacidade de atuar em conjunto em algumas lutas – as jornadas de junho o demonstraram. Os sindicatos também demonstraram sua solidariedade aos movimentos e organizaram no dia 11 de julho uma paralisação nacional, unindo suas reivindicações com questionamentos dos movimentos sociais. Os partidos políticos (ou alguns deles) também estiveram presentes na mobilização dos últimos meses. Eles foram importantes (nesse e em outros momentos) para estabelecer essa ligação entre os sindicatos e os movimentos sociais e para generalizar a luta estabelecida – inclusive tendo mais facilidade na atuação nacional unitária.

Apesar de suas potencialidades e de um claro caráter complementar, essa interação entre as esferas não ocorre, no entanto, de forma pacífica. As mobilizações de junho, como já apontamos, também apresentaram tensos momentos de oposição e rechaço aos partidos políticos, enquanto os movimentos sociais apareciam como forma organizativa mais adequada para o processo de luta estabelecido.

Por um lado está claro que há uma resistência, ideologicamente construída, à esfera especificamente política. Trata-se de uma noção que afasta a população do questionamento ao poder, que vê na política apenas a administração tecnocrática e não o campo em disputa do controle sobre todos os aspectos da vida social. Vê-se, assim, todos os partidos como meros conjuntos de indivíduos interessados em garantir seus próprios cargos, não projetos baseados em interesses de classe. A política aparece como unidimensional, não contraditória, não apresentando perspectivas de superação da ordem que a engendra como ela é hoje.

É fato, por outro lado, que a recondução à politicidade dos partidos (mesmo os de esquerda) muitas vezes ocorre como recondução à institucionalidade, e é bastante pertinente que os processos de intervenção direta na realidade (nos atos e assembleias populares que se espalharam pelo Brasil) pareçam incoerentes com a forma de representação indireta e alienante típica dessa esfera. Parte do rechaço aos partidos certamente se fundamenta nisso. Nesse sentido, também os sindicatos tiveram dificuldade de se inserir no processo de luta direta, tendo conseguido, no entanto, realizar uma paralisação nacional a partir das centrais, com caráter já diferente das principais manifestações do país.

Mas parece que outro processo – a burocratização – também fortalece a resistência aos partidos e torna sua relação com os movimentos sociais e os sindicatos pouco orgânica. Que se queira ressaltar o caráter político das pautas específicas e estabelecer pontes para o questionamento mais geral do poder e da ordem socioeconômica é compreensível e necessário. Muito da atuação dos partidos, no entanto, se baseia na transposição de uma atuação centralizada para instâncias em que ela não faz sentido. Baseia-se, assim, na imposição de pautas ou propostas, com incapacidade de compreensão das dinâmicas estabelecidas nos diferentes espaços de atuação. Em outras palavras, mesmo os partidos que visam questionar o poder estabelecido são muitas vezes incapazes de atuar democraticamente para a construção de movimentos, preferindo em geral construir a si mesmos como organização, por meio de operações propagandísticas de disputa de posição espetacular nas mobilizações, reflexo do vício de disputa de direções e aparelhos tão caro à atuação sindical e eleitoral desses partidos.

Por fim, cabe também atentar para o perigo de idealização dos movimentos sociais. Processos de organização horizontal apresentam uma série de dificuldades, inclusive para preservar esse caráter. Fazer apologia a essa forma de organização sem reconhecer essas dificuldades é problemático. Os movimentos sociais sofrem pressões para aderir à institucionalidade, e quanto mais o fazem, mais se tornam pólos de representação, burocratizados e corrompidos também pela mesma lógica – pensemos no tipo de negociação política que o MST vem fazendo desde a chegada do PT ao poder, e os efeitos desastrosos de desmobilização e retrocesso na consciência que a dependência do governo e de um partido produziram nas suas bases militante e social. A ausência de líderes também não é de forma alguma absoluta, apenas esse tipo de liderança se manifesta de forma diferente que em um partido, às vezes até mais perniciosa, por estar camuflada na ideologia do horizontalismo e autonomia. De qualquer forma, a relação entre os militantes organizados e as massas não é de forma nenhuma resolvida pela horizontalidade (ou não) das formas organizativas.

Procurar estabelecer uma oposição entre os três tipos de organização é, assim, inócuo. Com todas as possíveis críticas, os partidos têm um sentido em sua atuação que não pode ser substituído por sindicatos ou movimentos sociais. Esses últimos também não devem ser idealizados, uma vez que suas  próprias determinações organizativas tornam-nos suscetíveis a todo tipo de influências, ainda mais quando não há para eles a baliza (que não deveria ser o controle) de programas políticos mais gerais, fornecidos por organizações partidárias. Por outro lado, as tendências à burocratização e/ou institucionalização são generalizadas, atingem aos três níveis de diferentes maneiras, mas têm raízes sociais mais profundas numa crise de longa data das direções do movimento de massas em geral, só reforçada pelos processos de fragmentação social e cultural instaurados pelas reestruturações produtivas por que vem passando o capitalismo, especialmente nos últimos 50 anos. A esquerda precisa saber dar respostas a esses movimentos críticos que ressurgiram e, para isso, precisa se submeter a uma depuração auto-crítica permanente de suas práticas e mecanismos de auto-justificação teórica. Deixemos de lado oportunismos, formalismos e dogmatismos: precisamos ter a capacidade de nos reinventar nos próprios movimentos de enfrentamento, aprender com eles mais do querer dominá-los e instruí-los.

Setembro/outubro de 2013

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