Pós-ideologia e cinema

Por Alberto Sartorelli

ilustração pos-ideologia e cinema 2Para a arte revolucionária, não há indiferença em questão de cinema: o filme sempre tem um motivo, pode ser a perpetuação da ordem vigente ou a transformação social; neste caso, qualquer tentativa de neutralidade ideológica é conservadora. No entanto, a velha dicotomia direita versus esquerda, no capitalismo tardio, ganha novos elementos e tem aumentado a sua complexidade. O lucro ultrapassou qualquer limite ético. É o fim do dogmatismo moral. É tempo de pós-ideologia.

Para exemplificar a questão da pós-ideologia, tomarei como exemplo dois filmes brasileiros recentes: “Batismo de Sangue” (Helvécio Ratton, 2007) e “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” (Cao Hamburger, 2006). O primeiro relata a história real de Frei Tito Alencar (Caio Blat), estudante de filosofia na Universidade de São Paulo e religioso ligado à Teologia da Libertação, doutrina formada por membros da Igreja Católica que visava unir cristianismo e comunismo, indo de encontro aos interesses econômicos dos regimes ditatoriais capitalistas na América Latina dos anos 60 e 70. Frei Tito foi torturado pelos agentes do Estado brasileiro, e suicidou-se na França por decorrência da tortura física e psicológica. O segundo filme relata a história de um jovem garoto apaixonado por futebol, Mauro, que é deixado com o avô enquanto os pais têm de se exilar do Regime por serem partidários de esquerda; o avô de Mauro morre, e ele fica aos cuidados da comunidade judaica do bairro do Bom Retiro, em São Paulo, de onde acompanha fanaticamente pela televisão os desdobramentos da Copa do Mundo de 1970.

Percebe-se o teor sociopolítico destes dois filmes, como retratos da restrição de liberdade política implantada pelo Regime Militar no Brasil, com tortura, desaparecimentos e assassinato de militantes de esquerda. São filmes que acusam os horrores da Ditadura e resgatam a memória de figuras de resistência, reais em um e fictícias em outro. No entanto, há um outro elemento que está presente nas duas realizações (além de Caio Blat no papel de universitário revolucionário): o envolvimento da Globo Filmes no processo de produção.

As Organizações Globo estão entre os maiores conglomerados midiáticos do mundo. A Globo envolve canais de TV aberta e a cabo, estações de rádio, um jornal escrito, uma gravadora famosa, uma editora de grande circulação e uma companhia de produção e divulgação de produções audiovisuais, a Globo Filmes. As Organizações Globo, por meio de seu fundador Roberto Marinho e sua linhagem, utilizaram a mídia para criar um império econômico, político e ideológico. A Rede Globo de Televisão, terceira maior rede de TV do mundo, foi criada em 1965, coincidentemente um ano após o Golpe Militar. Roberto Marinho escreveu, em 1984 no editorial de seu jornal O Globo (primeiro grande empreendimento dos Marinho, que data de 1925), as seguintes palavras:

“Participamos da Revolução de 1964, identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, ameaçadas pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada. Quando a nossa redação foi invadida por tropas anti-revolucionárias, mantivemo-nos firmes em nossa posição. Prosseguimos apoiando o movimento vitorioso desde os primeiros momentos de correção de rumos até o atual processo de abertura, que se deverá consolidar com a posse do novo presidente.” – Roberto Marinho, jornal O Globo, edição n° 1.596, 7 de outubro de 1984.

O que Marinho chama aqui de “Revolução” é o Golpe Militar, patrocinado pelos Estados Unidos – os paladinos da democracia e dos direitos humanos – que depôs o presidente João Goulart e instaurou a Ditadura no país. “Anti-revolucionários” são os comunistas. Vê-se que, mesmo com os movimentos pela democratização do país, Marinho presta reverência aos militares que o ajudaram a chegar ao topo; afinal, ditadura ou democracia, o senhor Roberto Marinho detinha o monopólio da informação num país subdesenvolvido e de população preponderantemente pobre e alienada pelo trabalho e pela mídia, como era o Brasil nos anos 80. Ele realmente não tinha o que temer.

Portanto, sabemos que, no auge da ditadura até a época do editorial, as Organizações Globo sustentavam uma posição moralmente conservadora, incitando a população contra a ameaça do comunismo, defendendo os valores da família, da propriedade e da prosperidade, e ditando moda e bons costumes a partir de suas novelas. No entanto, de lá para cá, algumas coisas aconteceram. A União Soviética caiu e, junto dela, a referência concreta de organização socialista. O capitalismo – e os economistas que me perdoem pela grosseria – entrou na fase globalizada ou tardia, na qual a lógica do capital penetra em todas as localidades geográficas do planeta, impulsionada pela economia, política e cultura expansionistas, unidas em busca do lucro máximo. Se os europeus vieram trazer a civilização para a América, os capitalistas atuais levam o avanço econômico para as comunidades tribais da Polinésia.

Uma das características do capitalismo globalizado ou tardio é a dissolução de qualquer valor secular. A única moral é o lucro. Tudo deve ser mercadoria e vendida pelo maior preço possível, não importa se ferir valores que o indivíduo burguês sustentava antes. Vemos esse processo de modo ímpar na análise da Globo Filmes: provinda de uma raiz politicamente conservadora, hoje produz e veicula filmes como “Batismo de Sangue” e “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, críticas ao regime que ela própria apoiou.

Adorno e Horkheimer, com a obra “Dialética do Esclarecimento” nos anos 40, já diziam que a Indústria Cultural se caracteriza por ser gestora da própria crítica e lucrar com a crítica de si mesma, assimilando qualquer produção artística passível de alto valor de venda. A mesma empresa produz, veicula, avalia e vende a obra. Já nos anos 40, Adorno e Horkheimer previam a dissolução da moral em questão de veiculação de arte, afinal, há um público que se interessa por obras de crítica social (e paga por elas). A Globo Filmes é a representação perfeita da Indústria Cultural no Brasil. Seus filmes quase sempre conseguem fomentos governamentais por meio de editais, limitando muito a veiculação do cinema independente para o grande público e criando um monopólio quase incombatível. Kleber Mendonça Filho, diretor do filme “Som ao Redor”, declarou sobre a Globo Filmes: “Minha tese é a seguinte: se meu vizinho lançar o vídeo do churrasco dele no esquema da Globo Filmes, ele fará 200 mil espectadores no primeiro final de semana.” Ou seja, mais vale a capacidade do meio que veicula a obra em atingir o público, e sua alta rentabilidade, do que o conteúdo mesmo da obra.

A mídia, o mercado, a propaganda deixam de ser apenas conservadores. Hoje há até o estilo de publicidade “heroína-chic”, que estetiza o uso de drogas ilícitas com modelos maquiadas e com tipo físico de usuárias, criando uma poética do consumo de entorpecentes. É o lucro acima de tudo. E onde há resistência? Essa tensão entre dogmatismo conservador e lucro máximo se dá de modo exemplar no filme “The Godfather” (Francis Ford Coppola, 1972). Don Corleone (Marlon Brando) recusa-se a oferecer proteção a uma outra família da máfia envolvida no tráfico de heroína; os Corleone tinham envolvimento apenas com cassinos e prostituição, as drogas eram abominadas pela família católica italiana. Essa resistência ao tráfico de drogas gerou uma verdadeira guerra entre as famílias mafiosas. A postura eticamente conservadora dos Corleone impedia o rápido aumento do lucro, tanto da própria família quanto das outras máfias que dependiam da proteção deles. Era a moral secular como empecilho ao lucro máximo. O processo de dissolução da moral conservadora em prol do máximo lucro possível, esboçado em “The Godfather”, se aprofundou após a queda da URSS.

A Globo não é mais moralmente conservadora. A Globo se adequa às transformações do capitalismo. Diferente do público homogêneo dos anos 80, hoje a Globo produz para um público heterogêneo, e procura agradar a todos os gostos. Não só a Globo, qualquer empresa, qualquer burguês. O fetichismo da mercadoria substitui tendencialmente a idolatria religiosa. O dogmatismo moral conservador dá lugar ao vigor pelo lucro. É o desencantamento do mundo, diagnosticado por Weber em seu estágio mais avançado. As afecções cada vez mais dão espaço ao cálculo. O burguês não tem mais tempo a perder indo a missas ou vigiando a vida amorosa de sua filha mais nova.

Podemos chamar as sociedades capitalistas desenvolvidas no século XXI de pós-ideológicas. As multinacionais, por meio da publicidade, não precisam mais fortalecer uma moral em detrimento de outra através de ideologia (falsidade travestida de verdade); simplesmente vendem para todos os públicos. É a superação da ideologia.

A busca pela verdade e pela memória de determinado período histórico tem como valor o desvelamento das estruturas daquele período para que elas sejam identificadas e combatidas hoje em dia. “Batismo de Sangue” e “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” são obras importantes para a compreensão do período da Ditadura Militar no Brasil. No entanto, quem ganha dinheiro com elas é a Globo Filmes, empresa cujo fundador apoiou e se beneficiou do Golpe Militar. Hoje em dia, não importa. Se ser pós-moderno é poder ser tudo e por isso não ter identidade, ser pós-ideológico também é poder ser tudo e não ser nada. O capitalismo, de conservador se tornou multifacetado. Na era dos prefixos de posterioridade, o único “pós” que ainda não surgiu foi o “pós-lucro”.

Importantes:

Editorial d’O Globo de 1984

http://www.viomundo.com.br/bau/declaracao-de-principios-da-globo-versao-1984.html

Discussão entre Kleber Mendonça Filho e um executivo da Globo Filmes

http://ne10.uol.com.br/canal/cultura/noticia/2013/02/21/em-resposta-a-diretor-da-globo-filmes-kleber-mendonca-diz-que-empresa-adestra-o-publico-400475.php

Caio Blat, ator que participa dos dois filmes citados, analisa a lógica operante da Globo Filmes

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=M9oqblt3q1E#at=152

 Setembro/outubro de 2013

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