Rascunho de uma ontologia do estudante (2)

Por Duanne Ribeiro

ilustração rascunho de uma ontologiaComo se compreende o estudante? — chegamos a essa pergunta no primeiro texto desta série; a intenção era esclarecer se há características identitárias próprias ao estado de estudante; de que maneira se enxerga o aluno, como o enxerga o professor, como a sociedade o vê? Essas representações implicam o que nas práticas educacionais e políticas? Nossa primeira incursão se deu através do livro O Poder Jovem, de Arthur José Poerner, uma história da UNE, do qual extraímos a tensão velho versus jovem — que serviu como ferramenta para explorar qual seria a identidade do estudantado. Essa oposição no entanto tem uma história mais longa e não se restringe ao livro de Poerner. Nesta segunda parte, veremos como os mesmos dois elementos surgem em Mário de Andrade e Nelson Rodrigues.

Mário escreve, em 1932, na crônica “Estudantadas” (manifestações de estudantes):

“As estudantadas não são fenômenos individuais, refletem antes uma verdade coletiva. O moço, quer nos exames, quer nos atos livres da mocidade, aspira a uma aprovação. D’aí serem os atos dos moços muito mais sintomáticos duma coletividade que os atos dum velho. A experiência, vinda com a velhice, nos liberta muito, não só dos próprios homens como da própria vida. A velhice é muito egoísta; e os egoístas são sempre seres envelhecidos. Ao passo que a mocidade, muito mais egocêntrica sem dúvida, tem essa generosidade de ceder muito de si, de refletir a verdade coletiva da grei, pra ser amada e aprovada por essa mesma grei. Nisso está a força genial da estudantada. (…)”

O estudante, a juventude, é como que portadora de uma intuição própria sobre o espírito do tempo, do qual a visão é obscura aos velhos. O que se torna ainda mais claro no trecho:

“(…) E afinal a estudantada avançou tanto no seu ritmo de aventura, que veio a dar em morte de estudante. É uma coisa desgraçada a gente imaginar nesses rapazes que morreram por estudantada. Pouco importa verificar se a causa que defendiam, e pela qual a sorte exigiu o sacrifício de alguns, era legítima ou não. (…) Se a experiência me obriga a constatar que a mocidade tem sempre razão (…) Garantir e provar a legitimidade duma estudantada é o mesmo que cortar as asas dum pássaro para provar que é por causa delas que o pássaro voa. E temos que não cortar as asas dessa mocidade, por mais que ela nos contrarie e aflija.”

O egoísmo e a liberdade do velho (é curioso que “liberdade” esteja deste lado do par, não?), a necessidade de aprovação e o coletivismo do jovem do outro (também curioso, é este outro lado que mantém a tradição, que se esforça por ela, quando a anterior tende à desagregação). Mário brinda os estudantes com o tipo de confiança com que sempre servimos os artistas: ele deve estar certo, ele vê além do que eu vejo. Ele é algo que precisa ser interpretado.

Nelson será consideravelmente distinto. Em 1968, em “Da Linha Chinesa”, ele narra:

“Ainda ontem, fui procurado por um rapaz, estudante de teatro. Entrou na redação e vinha solene, ereto, hierático. Para na minha mesa. Diz, gravíssimo: — ‘Seu Nelson, trouxe isto aqui para o senhor ler’. (…) ‘Queria que o senhor lesse, o senhor que é contra o jovem’. Com tal afirmação, o rapaz criou entre nós o súbito e cavo abismo da primeira divergência. Dá-me um certo cansaço, um certo tédio, ouvir que sou contra o jovem. Repeti para o rapaz a casta e singela verdade: — não sou contra ou a favor de ninguém, automaticamente. Expliquei que a mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades. Naturalmente, o jovem tem o defeito salubérrimo e simpaticíssimo da imaturidade.”

Esse trecho, apesar da aparência, serve mais para que o autor ataque a concepção que vimos em Mário, de que “juventude” possui, por ser o que é, qualidades especiais e inacessíveis. O cronista dá a impressão de um igualitarismo de condições, e na sequência até mesmo respeita em Rimbaud a genialidade possível no jovem. Porém, ao fim:

“Fez-se uma pausa. E, então, catei na mesa a entrevista da minha amiga Cacilda Becker. (…) Começo a ler e paro nesta frase: — “O mundo é dos jovens”. A gloriosa atriz dá o mundo, de graça, de mão beijada. O sujeito tem dezessete, dezoito, vinte. Pronto. Toma o mundo. Mas vejam como, numa simples frase, está todo um crime, ou seja, o crime de dar razão a quem não a tem. O mundo só pode ser dos que têm razão. Mas a razão é todo um maravilhoso esforço, toda uma dilacerada paciência, toda uma santidade conquistada, toda uma desesperada lucidez.”

No longo caminho da maturidade do pensamento, o jovem não saiu ainda das primícias. Veja a série de termos elencados: esforço, paciência, conquista — trata-se de um processo difícil, e é só depois dele que alguém poderá se arrogar a “razão”, que, aqui, inclui o direito a decidir da forma de ser do mundo. Podemos dizer ainda mais — contanto que me permitam dois saltos interpretativos com toda imprecisão que possam ter. A frase “a razão é toda uma dilacerada paciência” parece ecoar uma frase de Buffon: “O gênio é apenas uma longa paciência”. Gênio, por sua vez, segundo Marilena Chauí, designava, em Goethe, o caráter de um grupo social, antes que o romantismo o substituísse por “espírito de um povo”. Aceitas essas genealogias apressadas, é como se Nelson negasse a clarividência estudantil; é mais provavelmente o velho quem está em posição de avaliar qual seja o zeitgeist.

O Velho e o Moço

Há uma semelhança entre as posições apresentadas: ambas abordam o tema sob o impacto de manifestações da juventude. Mário, na renascença de protestos de que ele se sentia saudoso. Nelson, frente a 1968 e tudo o que isso significa. Será uma constante? Dei uma pausa no artigo e chequei no Acervo Folha o que havia sido dito sobre os caras-pintadas. Muita euforia, e Otto Lara Resende, em “Brava Gente”, registrou: “Lúdicos e lúcidos, as caras pintadas, essa festa de garotos diz sim de ponta a ponta. (…) Meninos e meninas levam pela rua, mais que a esperança, a honra de um povo de cidadãos”. Serginho Groisman, em “Alquimistas desafiam o coro dos contentes”, ressalva: “Nada de achar que baixou o espírito da profunda consciência política, e que todos os jovens estão na mais pura militância. Mas esse re-recomeço mostra que, se os canais foram abertos, (…) mais jovens estarão perto de uma prática política”.

Será uma constante? Se for, poderemos encontrar expressões desses gêneros na atualidade — eis que estão dadas as condições, os grandes protestos.  Das ações do Movimento Passe Livre às caras-pintadas contemporâneos e kitsch que as sucederam; da Mídia Ninja, do Fora do Eixo; disso tudo e de nós mesmos cotidianamente, o que dizemos? Existe em nós, vemos nos outros um certo frescor, liberdade de criar coisa nova? Há pouco em nós e nos outros, e é através do trabalho e do estudo que acessaremos a cidadania plena? Ou os dois ao mesmo tempo?

Referências

Mário de Andrade, Taxi e Crônicas no Diário Nacional

Nelson Rodrigues, Cabra Vadia

Otto Lara Resende: http://acervo.folha.com.br/fsp/1992/09/18/2//4925582

Serginho Groisman: http://acervo.folha.com.br/fsp/1992/09/19/2//4925725

Leia o primeiro texto da série aqui.

Setembro/outubro de 2013

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