10 teses sobre a política – Jacques Rancière

Tradução de Lucas Paolo

 

Ofereço uma tradução literal apressada do texto “10 teses sobre a política” de Jacques Rancière. Dados os últimos acontecimentos políticos em nosso país e o crescente conclamo por uma intensificação do policiamento, pareceu-me urgente inserir esse texto em nosso contexto de prática e discussão política. O texto de base para a tradução é a tradução chilena de 2006 de LOM Ediciones, no livro “Política, polícia e democracia”. O texto original possui 20 páginas e cada uma das 10 teses é minuciosamente deslindada e explicada. Aqui, por motivo de espaço, oferecemos apenas as 10 teses traduzidas com uma explicação dos pontos centrais, a meu ver, da reflexão política de Rancière.  Deixo aqui meu agradecimento a Adrián Cangi pela descoberta desse texto, bem como grande parte das reflexões que seguem.

Todas as dez teses giram em torno da ideia central de Rancière de que um povo é aquilo que ainda não está dado, que precisa ser permanentemente criado. Contrário à tradição da luta de classes, nacionalista ou identitária, Rancière afirma que um povo não pode ser, para que haja política, jamais uma unidade substantiva passível de identificação. Nesse sentido, o povo é como um vazio ou um suplemento dos que dentro de uma partilha do sensível são incontados, deixados de fora. Rancière denomina partilha do sensível como “o sistema de evidências sensíveis que revela, ao mesmo tempo, a existência de um comum e dos recortes que nele definem lugares e partes respectivas. Uma partilha do sensível fixa portanto, ao mesmo tempo, um comum partilhado e partes exclusivas. Essa repartição das partes e dos lugares se funda numa partilha de espaços, tempos e tipos de atividades que determina propriamente a maneira como um comum se presta à participação e como uns e outros tomam parte nessa partilha.” (A partilha do sensível, p. 15).

Podemos dizer que para Rancière entre a política e a polícia operam três termos. A polícia opera dentro de uma partilha do sensível identificando aquilo e aqueles que configuram o comum partilhado e as partes exclusivas, a participação e a separação. A polícia é para Rancière um nome que designa a política como sistema legitimado de produção de acordos consensuais. Ou seja, a polícia é aquilo que com roupagens políticas institucionalizadas anula a própria política ao estabelecer o que deveria ser comum no sensível. É aí que a política, e o povo como terceiro termo, surge como possibilidade de forçar o dissenso, dizendo que é necessário expandir, suplementar a partilha do sensível, com aquilo que ainda não tem nome, com aqueles que estão nas margens, estão excluídos do consenso institucional. “Entre política e polícia, entre aqueles que pertencem à visibilidade do regime e aqueles que permanecem anônimos. Se poderia chamar a isso ‘luta de classes’, mas essa luta de classes não é realmente uma luta política, mas sim uma luta pela política. Isto para Rancière se deve ao fato de que uma das partes dessa luta, a polícia, não tem nada a ver com a política.” (Federico Galende, p. 80.) Enfim, a polícia é aquilo que na partilha do sensível naturaliza um regime de visibilidade e de enunciação que estabelece que certos modos sensíveis, certas práticas, possam existir dentro do institucionalizado e outras não.

Nesse sentido os três termos produzem a existência de um sujeito paradoxal. Paradoxo como aquilo que se diz em dois sentidos, com um mesmo valor. Um sujeito que participa de uma partilha do sensível, mas que ao mesmo tempo, enquanto sujeito político, necessita expandir, tendo em conta a ambiguidade de suas ações políticas, as práticas de visibilidade e as possibilidades de enunciação dessa partilha. Ao mesmo tempo, essa expansão deve ser intermitente e recreada permanentemente para que não devenha uma nova polícia ao naturalizar, fixar, novos regimes de visibilidade e de enunciação.

Um problema que se poderia colocar, exatamente nesse ponto, é que afirmar, ou permitir que tenham parte, aqueles que não têm parte, expandir a noção de povo produz um momento de identificação. Contudo, o central é que o povo não se sedimenta em uma unidade substancial, o momento identitário é apenas um momento necessário para a expansão dos que tem parte, para a criação de um povo que ainda não está, para permitir que os excluídos possam ter parte no comum. Entretanto, não se trata para Rancière de uma produção ético-ontológico, mas sim política, e, portanto, sempre identificações sempre paradoxais e provisórias. A democracia como uma perpétua e paradoxal reconstrução das subjetividades políticas. E isso pressupõe um interminável litígio pelas reconfigurações e resignificações do sensível, da partilha do sensível. É preciso que sempre haja margens de indefinições como condições de litígios no e pelo sensível, por invenção de novos sujeitos políticos.

Assim, finalmente, para Rancière, entre Política e Estética, Política e Polícia, está um povo como possibilidade de produção de mesclas impuras sensíveis. O que permite criação é reinvenção sempre paradoxal, a passagem de um termo a outro, é esse suplemento que é o povo como aquilo que precisa ser permanentemente recriado, como condição de que nunca se responda “O que é um povo?”, mas que a própria pergunta expanda nossa compreensão, e nos impulsione a reinvenção das subjetividades políticas.

Resumidamente, não se deve tratar o povo como uma unidade substancial, porque isso só é possível com exclusão das multiplicidades que não fazem parte dessa unidade; tampouco como inclusão social apenas, como agregar os incontados, porque isso é o que um policiamento institucional pode realizar, com a condição de manter na partilha do sensível o sentido de que os incluídos são uma parte exclusiva, excluída, que precisa ser tolerada, ou seja, sob a falsa face do consenso se inclui as margens, desde que se sejam mantidas como margens, como marginalizados, como as exceções do regime. É preciso que se trate como três, como um terceiro termo, que produz movimento entre a unidade identitária e os agenciamentos de inclusão. Que o povo seja o que está sendo, em todo momento, criado, a condição de reinvenção dos sujeitos políticos, a condição mesma da política.

Lhes deixo com as teses de Rancière:

 

  1. A política não é exercício de poder. A política deve ser definida por si mesma como um modo de atuação específico posto em ato por um sujeito próprio que depende de uma racionalidade própria. É a relação política que permite pensar ao sujeito político e não o contrário.

  2. O próprio da política é a existência de um sujeito definido por sua participação nos contrários. A política é um tipo de ação paradoxal.

  3. A política é uma ruptura específica da lógica do arkhé. De fato, ela não supõe simplesmente ruptura da distribuição “normal” de posições entre aquele que exerce um poder e aquele que o sofre, mas sim uma ruptura na ideia das disposições que se tornam “próprias” a essas posições.

  4. A democracia não é um regime político. É, como ruptura da lógica da arkhé, ou seja, da antecipação do mandato em sua disposição, o regime mesmo da política como forma de relação que define um sujeito específico.

  5. O povo que é o sujeito da democracia, portanto o sujeito matriz da política, não é a coleção de membros de uma comunidade ou a classe trabalhadora da população. É a parte suplementar em relação a qualquer conta das partes de uma população, que permite identificar em relação ao todo da comunidade a conta dos incontados.

  6. Se a política é o esboço de uma diferença que desaparece com a distribuição das partes e das partes sociais, ocorre que sua existência não é de maneira nenhuma necessária, mas surge como um acidente sempre provisório na história das formas da dominação. O resultado é que o litígio político tem como objeto essencial a existência mesma da política.

  7. A política se opõe especificamente a polícia.

  1. A polícia é uma divisão do sensível (partilha do sensível) cujo princípio é a ausência de vazio e de suplemento. O trabalho essencial da política é a configuração de seu próprio espaço. É fazer ver o mundo dos sujeitos e suas operações. A essência da política é a manifestação do dissenso, como presença de dois mundos em um só.

  2. Por mais que o próprio da filosofia política seja fundar a atuação política em um modo de ser próprio, o próprio da filosofia política é apagar o litígio constitutivo da política.

  3. O fim da política e o retorno da política são duas maneiras complementares de anular a política na relação simples entre um estado do social e um estado do dispositivo estatal. O consenso é o nome vulgar desta anulação.

Novembro/dezembro de 2013

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