A biblioteca

Por André Braga

Em tempos de grandes possibilidades de mudança na política nacional, gostaria de tomar o tempo dxs senhorxs para um tópico menor. Peço que tomem como um chiste, algo para alegrar o dia em meio a tantas coisas sérias que passamos o dia inteiro lendo: não há necessidade de dar mais relevância a isto, enfim, sintam-se em casa, afinal, tem gente que lê “Veja” só para se divertir e rir das bobagens, quer dizer, tem humor de todos os gostos, outrx tipo de gente gosta de descansar escutando conversas pelo corredor… Enfim, senhorxs,  gostaria de pedir, portanto, uma breve atenção para discorrer sobre algo que enche de orgulho a todxs nós: a Biblioteca Florestan Fernandes. Ela é a biblioteca com o maior acervo da USP com mais de 800 mil obras, e 15 mil inscritos. Já ouvi um epíteto de “a maior da América Latina” e, embora nunca tenha ido para um outro país da América Latina, temo não incorrer em uma inverdade, como é o caso de muitos epítetos superlativos – temos nas cidades do interior do estado a vocação para capitais nacionais disso e daquilo que não me deixa mentir. É de fato fascinante a quantidade de livros reunidos em seus três andares, sobre assuntos os mais abrangentes, livros de todos xs formatos, tamanhos, línguas, enfim, uma maravilha, mundos inacabáveis, estudos não só para uma, mas para várias vidas, etc., escolha a expressão que preferir, todas querem dizer a mesma coisa. Apesar disso, o que não ouço por aí, de gente que reclama que falta livros, falta espaço… Outro dia ouvi umx dessxs falar, acreditem só, que a biblioteca está desatualizada, que demora no mínimo cinco anos para adquirir os lançamentos brasileiros, que dirá os estrangeiros – e logo pensei, essx aí acordou querendo se gabar que sabe ler em outra língua – e que a biblioteca, para elx, não servia senão para os livros canônicos, ou seja, disse elx, aqueles que foram os guias das teses dxs professorxs mais antigxs, e consequentemente dxs sxus melhores pupilxs, que leem tão bem as obras dxs grandes autorxs (logo se vê, pensei comigo, que essx daí é mais umx dxs esnobes colegas meus que estudam filosofia) que chegam a repetir ipsis literis a interpretação dxs melhores comentadorxs, em geral francesxs, e cujos livros é possível se encontrar na biblioteca, de modo que se tornaram hoje xs novxs professorxs… enfim, elx continuou nessa toada e tenho certeza que estava mesmo é irritadx com alguma nota ruim que tirou.

ilustração biblioteca 1

Mas me espantou mesmo foi outra conversa que ouvi por aí – é impressionante como se conversa nos corredores por aqui, pelo menos na biblioteca reina algum silêncio –, não que eu seja fofoqueirx, mas movidx pela curiosidade natural de todx filósofx, procedo em pesquisa das ideias que circulam pelo nosso meio. Era umx estudante barbudx, de óculos não muito grandes, como é a moda agora, que estava se gabando de que na Europa as bibliotecas é que eram boas, tudo feito de madeira nobre, mesas largas, podia se emprestar quantos livros se quisesse e o sistema de guardar material antes de entrar na biblioteca – o que me chamou mais atenção foi a naturalidade fingida com que elx falou isso, sem nem esconder que sabia o quão hipócrita estava sendo – “você colocava uma moedinha de um ou dois euros e pegava a chave, sem escravinhxs intermediárixs. Aqui não, – dizia elx, e fiquei pensando, e me divertiu a ideia, que elx devia ser irmãx dxs patricinhxs que protestaram contra xs médicxs cubanxs – inventaram uma profissão ridícula, fruto dessa nossa tradição escravagista (x metidx ainda se atreve a falar isso) que é a de guardadorx de mochilas (e disse isso com um tom de desprezo na voz, como se elx não achasse que trabalhar numa biblioteca dessas fosse digno de alguém de importância, dessxs que carregam títulos e barbas por onde vão) na biblioteca, porque não somos capazes, ouvi dizer por aí, disse elx, de guardarmos as nossas próprias malas no armário, ah!, falaram que mudou o sistema de cadeados e ficou muito complicado, que xs alunxs não seriam capazes de se adaptar e por excesso de zelo e de didática, disse elx,  pretendendo mostrar que até descer à ironia e ao sarcasmo era capaz, se preocuparam em colocar alguém para guardar e pegar nossas coisas no armário. Fico pensando, continuou x pedante, que dxs professorxs não foi que elxs tiraram essa ideia didática (era tão metidx, pensei, que se achava digno de criticar xs professorxs) já que essa palavra não existe no vocabulário delxs, e que já que tem tanta regra na biblioteca, ‘ah, não pode pasta, não pode garrafa…’ (será que pode plantar bananeira?), outro dia vi umx russx, que entrava pela primeira vez e não sabia que não podia entrar com água, passei vergonha, continuava x prolixx-classe-média-sofre, já que tem tanta regra, podiam ser didáticxs quanto a elas, escreverem em algum lugar, mas não fazem isso porque sabem que é um absurdo (elx não parava mais, estava de fato revoltadx), não pode entrar com pasta por quê? porque elxs institucionalizaram o defeito de não conseguirem coibir o roubo de livros, e, ao invés de melhorarem o sistema, é mais fácil proibir todo mundo de usar pastas! E além do mais, continuou x verborrágicx cansadx das poucas e boas pelas quais a classe média tem que passar, além do mais (agora vem a chave de ouro, pensei ironicamente) como é possível alguém mudar o mundo e fazer a revolução se não é capaz de guardar sua mala num armário?”

Depois, na fila do bandeijão, me peguei pensando nessas besteiras, como se uma coisa (guardar malas no armário) tivesse alguma relação necessária com outra (mudar o mundo). Leitorxs, é preciso ficar de olho aberto, tem cada coisa que a gente ouve por aí…

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