A crítica do movimento estudantil

Por Matheus Ichimaru

Talvez não fosse despropositado, antes de iniciar, fazer algumas considerações a respeito do intuito desse texto. Ele é, ou se pretende – tanto quanto possível –, uma tentativa de reflexão a mais lúcida e honesta possível – melhor seria dizer “a mais lúcida porque honesta” – a respeito do movimento estudantil ele próprio. Seu propósito não é, como se poderia a princípio pensar – induzido pela conotação vulgar que a palavra “crítica” assumiu nos dias de hoje –, uma tentativa de desmoralizar ou de enfraquecer nem o movimento estudantil nem a sua luta específica de agora, travada contra uma estrutura de poder autoritária – que tem na figura do reitor João Grandino Rodas seu máximo expoente – e com vistas a transformá-la por meio de um processo de democratização. A crítica deve ser entendida aqui como um exercício de reflexão que coloca o próprio movimento estudantil no foco de uma análise minuciosa; que faz dele seu objeto de estudo e que tenta compreendê-lo no interior de suas contradições, de suas deficiências e fragilidades sem negligenciá-las ou atenuá-las estrategicamente. A expectativa é que daí surja uma imagem, fiel à realidade, que nos auxilie no processo de construção de uma luta coletiva mais sólida e bem estruturada. É, portanto, uma tentativa de agregar; de enriquecer; de fortalecer; de ampliar tanto o domínio da própria luta quanto o número de frentes onde ela se trava. No plano da ação grandes esforços têm sido já há algum tempo envidados; é hora, penso eu, de concentrarmos um pouco mais de energia no plano da reflexão teórica e ver se não transborda daí um caldo nutritivo capaz de complementar e de melhor ordenar o impulso surgido na angústia, no mal-estar, na revolta e no inconformismo diante do absurdo – eternos motores da ação política.

Em primeiro lugar seria importante sublinhar a forte identificação que tenho com o histórico de reivindicações do movimento estudantil e ressaltar, portanto, o caráter legítimo tanto de sua indignação quanto de suas lutas. O que quero fundamentalmente dizer é que os motivos das sucessivas revoltas dos estudantes me parecem quase sempre justíssimos e apenas alguém muito pouco razoável, ou mal intencionado, poderia considerá-los absurdos e, portanto, ilegítimas suas insatisfações: os decretos de José Serra em 2007 ferindo a autonomia universitária; a presença estrategicamente cavada da Polícia Militar no campus em 2011 como forma de demonstração de força por parte do governo estadual; a perseguição política aos estudantes e funcionários respaldada por um Regimento Disciplinar que é uma verdadeira excrescência da época da ditadura militar; e agora a questão da falta de democracia na forma com que a reitoria conduz as discussões universitárias, ignorando completamente os anseios e preocupações de boa parte de todos os três setores e fechando-se sobre si mesma como se aquilo que está sob sua administração fosse um Império e nós todos seus súditos, emancipando-se e desenraizando-se, assim, do corpo coletivo que lhe deu origem e transformando-se numa espécie de poder transcendente que agora, já livre das amarras que outrora a prendiam à coletividade, torna-se a ela inalcançável e acaba por suprimi-la e esmagá-la – é disso que estamos falando quando invocamos a palavra “democratização” para dentro dos muros dessa universidade.

Mas se os motivos de indignação do movimento estudantil são justíssimos e revestem, dessa forma, suas reivindicações com o verniz da legitimidade, como é possível que ele até hoje não tenha conseguido vitórias substanciais? Mais do que isso: como é possível que ele consiga sempre perder a confiança da opinião pública e, ao invés de agregá-la como potencial aliado para pressionar tanto reitor e reitoria quanto seu norte ideológico – o governo psdbista do Estado de São Paulo –, dela apartar-se de maneira tão antipática e odiosa? É, afinal, o restante de nossa população um completo oceano de conservadorismo e alienação, absolutamente insensível aos clamores estudantis de preservação da autonomia universitária e, portanto, imobilizável a nosso favor? Ou então é a imprensa assim tão poderosa e mal intencionada que consegue, sistematicamente alinhada aos interesses do Governo do Estado, manipular o restante da opinião pública e manobrá-la para sempre opô-lo às lutas estudantis? Não somos ingênuos, e já não mais mesmo o poderíamos ser. É evidente que, em alguma medida, a resposta a esses questionamentos é “sim”. Mas não haveria ainda outro fator, interior ao próprio movimento estudantil, e que seria o responsável por fazê-lo patinar e derrapar no afã de atingir seus objetivos? Não haveria outros problemas, de natureza diversa dos já apontados, que fariam com que o movimento estudantil, por assim dizer, tropeçasse nos próprios pés? Minha meta a partir de agora é investigar a fundo a trilha aberta por essa pista para depois, num terceiro momento, já em posse do material daí extraído, cotejá-lo com aquilo que já nos é bem sabido e reavaliar com base nessa nova imagem tanto o movimento estudantil como um todo quanto suas perspectivas de ação a curto e médio prazo. Esses serão os assuntos das próximas seções.

Gargalos do movimento estudantil

Ao refletirmos a respeito do movimento estudantil, sua composição e perspectivas de ação, podemos elencar logo de cara alguns fatores que atuam como gargalos no seu processo de maturação e desenvolvimento. Esses gargalos poderíamos mesmo chamá-los de naturais – porque partem da própria natureza do movimento estudantil –, e podem ser, a meu ver, bem resumidos nos seguintes itens:

  1. Período de permanência na universidade relativamente curto: diferentemente de um partido político, de um sindicato ou mesmo de movimentos sociais de outra natureza, o movimento estudantil possui a particularidade de ser constituído por um corpo que está em constante reformulação. Em 4 ou 5 anos a maior parte dos estudantes se forma, alguns trancam o curso, viajam, outros pedem transferência ou há mesmo aqueles que simplesmente evadem. Por conta dessa dinâmica e, portanto, do tempo de permanência relativamente curto na universidade por ela proporcionado, surge uma dificuldade de planejar e de executar ações em longo prazo e de dar continuidade àquelas já em curso, decorrendo daí um certo grau de imediatismo e de contingência no plano das ações que, a meu ver, não pode deixar de ser visto como um gargalo do próprio movimento estudantil;

  2. Cursos extremamente difíceis e exigentes: a Universidade de São Paulo é a maior universidade do país e aquela que goza de maior prestígio no que diz respeito à excelência de seus cursos. Decorre daí que o grau de dificuldade e de dedicação exigidos para cursá-los é bastante grande. Isso consome não apenas tempo mas também disposição psíquica, física e emocional. Não são raros os casos que conheço de colegas – eu mesmo me incluo na estatística – que em algum momento de seu curso se viram isolados de uma série de outras atividades, estranhas ao andamento do curso, pela necessidade de se dedicar de maneira praticamente exclusiva à vida acadêmica. Isso faz com que se cave um fosso entre vida acadêmica e participação na vida política da universidade, sobretudo nos cursos que pela natureza mesma dos conteúdos abordados passam mais ao largo das preocupações sociais, políticas e econômicas e não possuem como objeto de estudo algo que esteja a elas diretamente relacionado. Todo esse cenário apresentado faz com que surja, a meu ver, uma série de forças impeditivas que, naturalmente, vão desencorajando o estudante a tomar parte tanto do movimento estudantil quanto da vida política mais ampla da própria universidade;

  3. Média de idade relativamente baixa: eu sei que esse é um dos pontos mais delicados a se apresentar, pois poderia endossar, se indevidamente enviesado, um discurso canalha de desmoralização das ações estudantis como, por exemplo, aquele apresentado por alguns membros do CO (Conselho Universitário) que, segundo relatos, com o dedo em riste e transbordando autoritarismo e prepotência “tratoraram” as reivindicações dos representantes discentes na última reunião do conselho, de 1º de outubro, aos gritos de “moleque” e outros xingamentos desse jaez. Entretanto, como o intuito dessa reflexão é ser o mais honesto possível e não fazer nenhum tipo de concessão negligente ou estratégica, devemos nos lançar sem desvios em direção à contradição e tomá-la mesmo em sua integralidade, aceitando-a como algo consolidado para depois, aos poucos, ir buscando seus nós e puxando os fios capazes de desatá-los. Por essa razão reitero: não posso deixar de ver a baixa média de idade como um gargalo para o movimento estudantil – muito embora ela seja a um só tempo, e talvez pelas mesmas razões, um de seus trunfos, como irei ressaltar adiante. A pouca idade dos estudantes – a maioria encontra-se na casa de seus vinte e poucos anos – implica uma curta experiência de vida; implica também uma curta bagagem intelectual, por mais extensa que ela seja para sua idade; implica ainda um raso conhecimento do funcionamento da universidade em seus bastidores e em seus mais profundos detalhes. Isso é incontornável. Além disso, não me parece desarrazoado afirmar que a juventude não é o momento da vida em que a razão encontra-se mais bem assentada no espírito humano; ao contrário, parece ser o momento em que as paixões dominam; os sonhos imperam; o ímpeto de agir se sobrepõe à prudência de refletir. E isso tudo, somado ao que foi anteriormente afirmado, me parece contribuir para afastar, às vezes, as decisões do movimento estudantil do caminho do bom senso. Mas é preciso que eu faça agora uma defesa imediata dessa crítica: isso não quer dizer, em absoluto, que por conta disso o movimento perca sua legitimidade ou que não seja capaz mesmo de fazer uma leitura bastante apurada das situações em jogo e de formular questões e propor soluções absolutamente pertinentes aos problemas apontados; de forma alguma. Isso quer tão somente dizer que para isso ele terá de enfrentar essas dificuldades que lhe são inerentes e superá-las; e isso inevitavelmente. Por fim, resta ainda dizer que essa juventude do movimento estudantil e as características que a pouca idade lhe confere se são por um lado, como já argumentado, uma espécie de impeditivo a ser superado, são por outro lado uma espécie de pedal que o impulsiona – mesmo que às vezes de uma maneira vacilante e um pouco errática – a agir e a romper a inércia congelante que vemos em muitos casos engessar alguns setores da sociedade que se mostram absolutamente impassíveis diante de um cenário absurdo de completa injustiça e de violação do estado democrático de direito. Desse mal, é importante ressaltar, o movimento estudantil não sofre e jamais, penso eu, virá a sofrer.

  4. Influência do tempo presente: por último, mas não menos importante, devo ressaltar o contexto econômico, social e político que vivemos atualmente e que é o responsável, em larga escala, por balizar as ações e comportamentos das pessoas. Vivemos uma realidade, ao menos em nossas democracias – entre muitas aspas, é claro – liberais do ocidente, na qual o discurso e a ideologia neoliberal há muitas décadas predomina e vem moldando, desde então, as relações interpessoais tanto no âmbito público quanto no âmbito privado. Essa corrente de pensamento – somada a uma série de outros fatores –, se não foi a responsável pela gênese, certamente contribuiu de maneira decisiva para agravar o processo de individuação no seio da sociedade – não seria mesmo exagero, penso eu, dizer “processo de fragmentação” ou mesmo de “dissolução da sociedade” –, a tal ponto de transfigurá-la numa espécie de arquipélago de autocratazinhos, sujeitos atomizados, circundados por um conjunto de liberdades individuais e completamente apartados – por que não dizer protegidos? – do corpo coletivo; algo muito próximo do ideal thatcheriano de sociedade. Todas essas mudanças, penso eu, foram responsáveis por engendrar um comportamento de extremo individualismo – não seria exagero também dizer egoísmo, no sentido mais pernicioso da palavra –, apatia e alienação, que, por sua vez, faz com que funcionemos muito mal, ou mesmo não funcionemos,  do ponto de vista coletivo. Isso fica patente a mim quando participamos de uma assembleia ou mesmo em menor escala de uma simples reunião de condomínio. É impressionante notar o quanto nos tornamos surdos, míopes, pouco razoáveis, irritadiços, chiliquentos e opacos ao diálogo; o que antes era divergência torna-se ofensa; o que antes era argumento torna-se injúria; o que antes era ponderação torna-se ataque; e o que antes era debate torna-se, enfim, um grande e fastidioso cabo-de-guerra. Meu ponto, para encerrar esse item, é que, em alguma medida, tudo isso ecoa, ou é refletido, no interior do movimento estudantil também.

Aparelhamento do movimento estudantil

Todos os pontos elencados na seção precedente em alguma medida transcendem o alcance do próprio movimento estudantil. Quero dizer com isso que muito dificilmente uma ação sua sobre si mesmo poderia dar conta de saná-los completamente, uma vez que a raiz do problema encontra-se alhures e é a partir mesmo desse dado que a transcendência se efetiva. É bem verdade que poderíamos adotar resoluções concretas que visassem de certa forma atenuar os efeitos prejudiciais que tais gargalos desempenham no movimento estudantil, mas de uma maneira geral acredito se tratar de problemas que, embora tenhamos o dever de reconhecer, não podemos resolver integralmente, e nos restaria, portanto, aprender a com eles conviver adotando aqui e acolá estratégias para contorná-los de maneira pontual. Entretanto, um último gargalo faltou ainda ser citado e o cito agora, apartado dos demais, justamente por acreditar que deles se diferencia de maneira essencial, pois, diferentemente dos outros, não o considero, em absoluto, natural – e naturalizá-lo, como pretendo mostrar, seria mesmo um erro de graves consequências.

Sem mais rodeios é preciso admitir que o movimento estudantil encontra-se atualmente, e já há um bom tempo, aparelhado. O que isso quer dizer? O aparelhamento, no jargão da política, diz respeito à utilização – na maior parte dos casos indevida – de uma instituição – na maior parte dos casos pública – por parte de um grupo com interesses corporativos ou partidários, de tal modo a colocá-la a serviço desses seus interesses mediante a ocupação de posições estratégicas dentro deles. A partir de quais dados podemos, então, afirmar que o movimento estudantil encontra-se aparelhado? Bom, se uma simples ida a uma assembleia geral não for suficiente para convencê-lo, devemos atentar para o fato de que as eleições para o DCE (Diretório Central dos Estudantes) – órgão maior de organização estudantil – são explícita e sabidamente dominadas por partidos políticos – PSOL, PSTU, PCO, LER-QI etc. e mais recentemente PSDB, embora a chapa Reação insista em se dizer “apartidária”. Isso não é de modo algum natural e se nos colocarmos as questões adequadas, me parece, começam a aparecer os motivos pelos quais o aparelhamento se dá, ou mesmo as evidências que me levam a crer que ele de fato existe.

Em primeiro lugar é preciso entender que a Universidade de São Paulo, pelo seu tamanho e por sua importância, ocupa uma posição de destaque dentro de um cenário político mais amplo, seja nas esferas municipal e estadual ou até mesmo em âmbito federal. Logo, os acontecimentos ocorridos no interior de seus muros têm relevância política e chamam a atenção da opinião pública da cidade, do estado e da nação. Não é difícil enxergar a partir daí que aos olhos de partidos políticos e de movimentos sociais – sobretudo daqueles que não têm grande expressividade em âmbito nacional – a USP surja como uma grande oportunidade de efetivação de suas lutas; de ramificação de suas bases de atuação; e de ampliação de suas frentes de batalha. Nesse contexto, sobretudo àqueles que já têm uma certa vivência dentro da universidade, fica fácil compreender as paralisações sintomáticas que observamos, por exemplo, em anos eleitorais. É evidente que para a situação não é nada agradável entrar em uma disputa eleitoral com a maior universidade do país, sob sua jurisdição, paralisada e em efervescência. Logo, para a oposição, a inserção de suas pautas na agenda universitária, seja por meio do movimento estudantil, seja por meio do SINTUSP (Sindicato dos Trabalhadores da USP) ou mesmo da ADUSP (Associação dos Docentes da USP), torna-se inegavelmente uma ferramenta de luta política bastante valiosa. No meu entendimento não parece nada absurdo raciocinar acerca dos acontecimentos políticos na Universidade de São Paulo por meio dessa chave partidária. Por meio dela, como já dito, o aparelhamento se explica como tentativa da oposição – ou parte dela – de transferir para dentro dos muros da universidade suas lutas partidárias mais amplas; por meio dela se explica também a intransigência com que a Reitoria – mero “departamento ultramarino” do governo do Estado – trata as reivindicações estudantis, pois, afinal, sabe desse aparelhamento e reconhece ali não um coletivo de estudantes, mas um adversário eleitoral; por meio dela se explicam ainda muitos outros fatos, como, por exemplo, a enfiada oportunista da Polícia Militar para dentro do campus do Butantã como tática política; a escolha do ex-governador José Serra por João Grandino Rodas, o segundo nome mais votado da lista tríplice de 2009, em contrariedade a uma tradição vigente de longa data e que havia sido respeitada mesmo em anos de ditadura militar; e, por fim, o surgimento e relativo fortalecimento de uma corrente psdbista dentro do próprio movimento estudantil, historicamente tão marcado por uma certa hegemonia da esquerda, como tentativa de recuperação de terreno por parte da situação. Já não somos ingênuos, sabemos que há nos três setores da universidade uma considerável inserção de partidos políticos nas suas principais instâncias deliberativas; não sejamos agora cínicos ou inconsequentes e assumamos, pois, que essa considerável inserção partidária efetivamente se desdobra em algum grau de aparelhamento.

Devo dizer agora que o aparelhamento não constitui apenas um problema logístico-operacional, no sentido de que, enquanto gargalo do movimento estudantil, ele atua como um impeditivo para que este alcance suas metas. No meu entendimento precisamos cavar um pouco mais fundo nessa reflexão e admitir que o aparelhamento é também um problema ético-moral, porquanto viola os valores republicanos mais fundamentais da política e mesmo corrompe os organismos e instituições nos quais se instala – “corrupção” aqui não apenas no tosco sentido de hoje em dia de desvio de verba, de pagamento de propina etc; mas naquele sentido maquiaveliano de corruzione, de desacordo entre a forma e a matéria de um estado que acaba por engendrar o mau funcionamento da máquina pública. O aparelhamento do movimento estudantil é um problema a priori, isto é, independente de seus efeitos, pois ele é desnaturação; ele desnatura o movimento estudantil, isto é, faz com que perca sua natureza primeira, e isso por si só, não posso pensar de outra forma, é necessariamente um problema. Uma assembleia de estudantes deveria ser um local onde os estudantes se reúnem para coletivamente discutir as questões da universidade e deliberar a respeito de possíveis soluções para elas; não um local onde grupos pré-organizados, sabidamente comprometidos com uma agenda externa – ainda que ela seja legítima e relevante –, que nunca passou pelos olhos dos demais estudantes e que em vários pontos sequer toca as questões universitárias, se digladiam para obter o controle do movimento e por meio dele, nele inserindo suas pautas, perseguir seus objetivos particulares. Isso corrompe o movimento estudantil; isso cinde o corpo dos estudantes. Para terminar esse tópico: o aparelhamento do movimento estudantil é corrupção; e se isso for bem compreendido, então meu objetivo nessa seção terá sido alcançado.

Crítica da crítica: o perigo de uma caça às bruxas

Sem perder de vista o exposto precedente é importante agora, antecipando já o contra-movimento dialético intrínseco a esse tipo de debate, pôr a nu aquela que poderia ser a extrapolação mais indevida da problematização acima apresentada. Um dos grandes perigos que corremos ao refletir sobre o que foi dito é o de concluir sumariamente que os estudantes filiados a partidos políticos, coletivos e outros movimentos sociais, externos e desvinculados formalmente da universidade, são a moléstia do movimento estudantil e que devem, portanto, para o bem do próprio movimento estudantil, ser combatidos e afastados da vida política da universidade. Eu sei que essa é uma conclusão bastante ignóbil e intolerante, e duvido que – rezo para que não! – a maior parte dos meus colegas incorresse em tamanho erro de ilação. Entretanto, como já salientado, não estamos mais em condição de sermos ingênuos ou levianos, e sabemos também da presença de ideologias bastante atrapalhadas dentro do próprio movimento estudantil, como, por exemplo, a UCC (União Conservadora Cristã) e a chapa Reação (que, aliás, não entendo até hoje se o intuito era mesmo fazer um chiste ou se não enxergam de fato que esse nome é uma piada pronta), e que poderiam, sabe Deus lá de que maneira, se aproveitar desse caldo de antipatia para protagonizar algo parecido com o que presenciamos nas manifestações de junho e julho, sobretudo em São Paulo, quando militantes de partidos nanicos de esquerda e até do partido dos trabalhadores foram hostilizados e expulsos das manifestações de rua numa das mais bizarras demonstrações de autoritarismo e proto-fascismo de que tive notícia nos últimos tempos. Logo, é preciso de imediato fazer essa distinção: a corrupção do movimento estudantil via aparelhamento partidário não é necessariamente um ato de má-fé; ela pode vir a ser e de fato temos, às vezes, indícios que nos levam mesmo a crer que dessa forma ela se consolida. Mas de uma maneira geral precisamos começar a enxergar a inserção de militantes de partidos políticos no movimento estudantil de uma maneira não demonizada sem perder com isso o teor crítico que uma reflexão lúcida e imparcial a respeito desse assunto imprime no debate.

Mas como conciliar agora essa postura não demonizante com a afirmação que fiz logo acima, quando disse que era preciso considerar o aparelhamento partidário para além de uma mera questão logístico-operacional e inseri-la no plano da ética e da moralidade? Como isso se torna possível se a princípio admitimos que a corrupção não se dá necessariamente por ato de má-fé? Bom, não é necessário que se tenha em mente ser mau para agir de maneira perniciosa. É evidente que aqui a questão começa a se tornar bastante sutil e caminhar para o campo de uma certa subjetividade, o que desencorajaria os mais céticos e os mais objetivos a seguir considerando a discussão pertinente ou mesmo interessante. Mas é positivo que isso ocorra, eu devo dizer. É bom sinal que a investigação teórica tenha adentrado um terreno de incertezas e de vicissitudes, porque é exatamente assim que a realidade parece se apresentar. Se a partir de uma realidade vertiginosamente contraditória e repleta de arestas empreendemos uma reflexão que busca explicá-la em sua integralidade, e no decorrer dessa reflexão nos vemos atolados até o joelho em terreno igualmente contraditório e repleto de arestas, é sinal de que talvez tenhamos finalmente atingido seus fundamentos. A distinção que estou tentando empreender é, em suma, aquela existente entre três tipos diferentes de análise que, na falta de melhor denominação, chamaria de: a negligente, a demonizante e a lúcida. Uma análise negligente e irresponsável é, a meu ver, aquela que não reconhece o aparelhamento do movimento estudantil e muito menos que ele é corrupção; uma análise demonizante é aquela que reconhece o aparelhamento mas lhe atribui como causa uma perniciosidade desnecessária – que mais a frente irá conduzir à famigerada caça às bruxas; uma análise que tendo a ver como mais lúcida e equilibrada é, por fim, aquela que reconhece o aparelhamento como corrupção mas lhe atribui como causa outra coisa que não a simples má-fé. E qual seria então a causa efetiva desse aparelhamento involuntário por assim dizer? Tendo a pensar, e cada vez mais, que sua causa – assim como a causa de uma série de outras corrupções na política contemporânea – é a inobservância ao interesse comum, ou de uma maneira mais geral, a inobservância aos valores republicanos; e desse assunto falarei mais longamente na seção a seguir.

Possível solução: resgate dos valores republicanos?

ilustração crítica do movimento estudantil 1Essa é a parte do texto em que a crítica começa a sair de cena e passa a dar lugar a uma reflexão mais especulativa e propositiva – muito de acordo, aliás, com o papel que se espera de uma crítica, que é o de analisar minuciosamente um objeto de estudo para que em seguida essa análise sirva de solo para a edificação de uma síntese. Entretanto, essa reflexão especulativa e propositiva se pretende bastante breve e inicial. Quero apenas desenvolver um pouco mais a ideia apontada ao fim da seção precedente e ver aonde ela pode nos conduzir.

Em primeiro lugar preciso salientar que ela se inscreve na trilha aberta por alguns autores, como, por exemplo, Hannah Arendt e Claude Lefort – os cito não como argumento de autoridade, mas apenas para maior esclarecimento do leitor –, que diante de um certo esgotamento conceitual causado pelo embate de ideias liberais e marxistas no debate político contemporâneo, e tentando superá-lo, foram buscar na tradição de pensamento republicano elementos capazes de auxiliar e mesmo de ressignificar todo um conjunto de questões e de problemáticas nas quais o pensamento político atual encontrava-se – e ainda se encontra, em certa medida – emperrado. Na esteira desse movimento, portanto, o qual considero extremamente promissor e fecundo, penso agora em estendê-lo à discussão do movimento estudantil, ou contrariamente, em trazer o próprio movimento estudantil, microcosmo particular de um universo político mais amplo, para debaixo das lentes dessa análise.

O plano é simples e sua execução quase imediata: a crítica até aqui empreendida buscou indicar problemas relacionados à constituição e funcionamento do movimento estudantil; em seguida, localizando aquele que considerou o mais grave dentre eles e procedendo a seguir as distinções que julgou necessárias, procurou cavar mais fundo até atingir seus fundamentos. Essa busca termina, no meu entendimento, ao se responder à seguinte questão: qual é, afinal, a causa da corrupção do movimento estudantil? A resposta, como já apontado, e escapando ao senso comum, me parece ser a seguinte: a causa efetiva da corrupção do movimento estudantil é a persecução individual ou partidária de interesses particulares. E qual é a causa, por fim, dessa causa intermediária? Reitero: a inobservância ao interesse comum – e o interesse comum aqui deve ser tomado obrigatoriamente como valor republicano, o que acaba por inscrever essa reflexão na trilha indicada acima.

Cumpriria agora, coisa que não farei de modo algum porque tanto escapa à minha competência como foge ao próprio escopo desse texto, conceituar profunda e detalhadamente o que vem a ser o interesse comum. Apesar de declinar dessa tarefa, pelas óbvias razões já apresentadas, devo dizer que, na falta de algo melhor e para os propósitos restritos desse texto, o interesse comum pode ser compreendido como aquele interesse que persiste no espírito humano ao se meditar sobre determinadas questões guiado somente pela razão e no silêncio das paixões. Sei dos perigos em que incorro ao propor tal conceituação; sei do perigo que existe ao se invocar palavras como “espírito humano” e “paixões” no debate político contemporâneo, tão marcado – por que não dizer empobrecido – pelo positivismo jurídico; sei do perigo que há por detrás do apelo à razão – a pressuposição de uma razão universal e coisas do tipo. Sei de todos esses inconvenientes; não os ignoro. Entretanto, acredito que pensando o interesse comum como alguma coisa desse tipo – ou ao menos assim o colocando como norte da reflexão e postergando a discussão espinhosa a respeito da possibilidade mesma de sua existência e toda a masturbação intelectual que ela traz como ônus para um outro momento – ele vem a se amalgamar muito adequadamente às necessidades práticas implicadas no problema que o invocou. Quero dizer com isso que eu realmente acredito que tanto melhor seria o debate e a organização do movimento estudantil e tanto mais ele se afastaria do aparelhamento ou de qualquer outra forma de corrupção, quanto mais as pessoas atentassem para isso que chamei de interesse comum. O silenciamento das paixões seria o responsável por tirar de cena interesses particulares que distraem o corpo coletivo em sua busca pelo bem comum; a meditação racional seria a responsável por conduzir as pessoas àquilo que persiste a esse silenciamento – o que alguns chamariam de “o bom”, “o justo” e que eu chamei de “interesse comum”.

Muito abstrato? Difícil de entender? Vamos tomar um exemplo concreto: em assembleia alguém propõe que determinadas questões, mais controversas e cruciais para os rumos do movimento – como, por exemplo, a deliberação por greve ou não –, sejam votadas em urna e em período extraordinário no decorrer de alguns dias subsequentes à reunião. O interesse é que com isso a vontade de um maior número de estudantes seja contemplada e que, portanto, as decisões tomadas em assembleia sejam mais representativas em relação ao todo dos estudantes. Qual não é nesse caso uma atitude republicana – e não o é justamente porque ignora o interesse comum? Antever que uma proposta como essa, se aprovada, põe em risco a realização da própria greve – uma vez que a probabilidade de que o grosso da população estudantil se oponha à greve é relativamente alta – e em decorrência disso manobrar a votação ou mesmo tratorar a discussão para que ela não ocorra – pela última vez, não somos mais ingênuos, sabemos que isso acontece. Veja que aqui tais pessoas ainda podem estar sendo movidas por boas intenções, porque elas podem de fato acreditar – como eu, por exemplo, acredito – que a greve é necessária como instrumento de luta contra uma reitoria e contra um governo do estado opressores etc., etc., etc. Mas veja também que esse interesse agora se converte em interesse particular, ainda que se possa argumentar que ele está direcionado ao bem comum. Qual seria então uma atitude dita republicana – e o é agora justamente porque atenta para o interesse comum? Apesar de reconhecer que com isso a concretização da greve possa ser colocada em risco – e de enfiada a luta legítima e necessária contra a reitoria e o governo do estado –, silenciar essa paixões e admitir que não há nenhuma razão – se houver, que ela seja colocada – para se impedir que essa proposta seja ao menos votada pelo plenário. No primeiro caso, quando não se atenta para os valores republicanos, temos a corrupção da instituição em questão; no segundo, sua preservação e fortalecimento.

O contra-argumento mais óbvio e imediato nesse caso seria o seguinte: mas então você está sugerindo que em situações como essa a coisa certa a fazer seria aquela que põe em risco a concretização de uma luta tanto legítima quanto necessária? Sim, é precisamente isso que estou querendo dizer. Ainda que se tenha plena convicção de que em dada situação determinada resolução seja a mais acertada a se tomar, e ainda que se seja movido a isso pela melhor das intenções, a persecução desse fim não pode se dar de maneira inadvertida; não pode violar esses princípios republicanos que considero fundamentais. E por que não? Bom, se essa questão me for seriamente colocada, apesar de muito tentado a recorrer à célebre frase de Brecht – “Que tempos são esses em que é necessário defender o óbvio?” –, acredito que meu argumento caminharia algo em direção à máxima ciceroniana de que nada existe de útil que possa ser contrário ao honesto; e terminaríamos, assim, por perfazer o caminho que conecta o campo da política com o da ética e da moralidade.

Bom, é mais ou menos assim que enxergo a questão…

 “Quanto à causa que a maioria apoia e me parece justa, aplaudo-a com moderação. Ela não me apaixona. Não lhe hipoteco toda a minha razão e a minha alma. A cólera e o ódio nada têm a ver com a justiça; são paixões a que somente podem entregar-se aqueles que não sabem obedecer serenamente à razão e ao dever, porque “só quem não domina sua razão se abandona aos impulsos desordenanos da alma”. Todas as intenções legítimas e justas são por si mesmas aceitáveis e moderadas, sem o que se tornariam subversivas e ilegítimas. Por isso ando por toda parte de cabeça erguida, rosto e coração abertos. E, em verdade – não temo confessá-lo – em caso de necessidade acenderei de bom grado, como a velhinha do ditado, uma vela a S. Miguel e outra ao dragão. E seguirei o partido do direito até a fogueira exclusive.”

MICHEL DE MONTAIGNE, Ensaios III.I

 Novembro/dezembro de 2013

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Comments
One Response to “A crítica do movimento estudantil”
  1. Rciardo disse:

    Antes de usarem a típica demonização e analogias sem sentido para atacarem a chapa Reação, seria interessante lerem a carta programa da chapa e compararem com as demais chapas aparelhadas por micro partidos, que fazem da USP sua plataforma política, sacrificando os reais interesses dos estudantes.

    http://reacaousp.wordpress.com/carta-programa/

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