A pele a se habitar

Por Bruno Bernardo

ilustração a pele a se habitar 2

Quando assisti ao filme A pele que habito, de Almodóvar, no cinema, não fiquei exatamente impressionado. Mais tarde, porém, comecei a pensar sobre ele. Facilmente nos identificamos com o garoto, Vicente. De certa forma, recusamos a proposta de justiça do personagem interpretado por Antonio Banderas, o cirurgião Robert Ledgard, que se dá sob a forma de uma vaginoplastia, mais uma série de cirurgias plásticas, encarceramento e o vigiar constante, transformando Vicente num objeto sexual-voyeurista chamado Vera. Achamos, por outro lado, justo o final, com o assassinato de Robert Ledgard e sua mãe, possibilitando a fuga. Tendemos, portanto, a considerá-lo antagonista ou vilão. Isso porque somos normais. Mas numa obra de arte podemos nos sentir mais livres para a honesta loucura de nosso espírito, e tomar a vingança como aplicação de pena, que, aliás, na mão do Estado parece-me ser mais cruel, pois sistemática e mantenedora de desigualdades. Tento então colocar uma proposta de interpretação para o filme, mantendo a noção de justiça desvinculada do Direito em mente. Não tento abarcar o todo, portanto, deixando de lado aspectos sutis, como um masoquismo em Ledgard e outros que me parecem bem visíveis, como a ironia com toda trama da vida, ao mesmo tempo em que não nos deixa de emocionar com o verdadeiramente humano que vive atrás dos mudos gestos dos atores e acasos da trama. E nem essa beleza é poupada de ironia, causando uma sensação inebriante de alegria e tristeza, apreensão e leveza, como a vida em sociedade é. Um bom exemplo de um momento como esse é o final, no reencontro de Vicente com sua mãe e Cristina. Ele conta à Cristina toda sua bizarra história, rápida e normalmente, como se contasse qualquer coisa, mas nada do que fala é o real, a trama toda torna-se nada e tudo o que de fato existe naquele momento são os corações palpitando fortemente num misto de nostalgia, saudade e expectativas para o futuro.

Mas voltemos ao recorte interpretativo que quero fazer. O título do filme parece-me ser um indicativo que sua proposta é adentrar a pele de cada um dos protagonistas, habitando-a. Parece-me, inclusive, que o cartaz do filme, com o rosto de Banderas e Elena Anaya em close, acentua esse convite. O habitar é para ser levado a sério, pois é somente estando envolvido inteiramente dentro do mundo dos envolvidos que se pode julgar uma determinada ação. Há, então, dois filmes dentro de um, dois mundos, duas maneiras inteiramente diversas e extremadas de se encarar cada um dos dois e sua relação: o crime e a justiça aplicada.

Começaremos pela pele do que poderíamos chamar antagonista. Robert Ledgard, o cientista, centra-se no exterior de sua vida. E entrar em sua pele é fruir essa beleza externa imediata, da maneira mais apaixonada possível (com apaixonada, quer-se dizer passiva). É isto que o move – e é um personagem voltado inteiramente para a ação – e a ação é sempre trazer a beleza para perto de si, alterando este mundo externo para entrar de acordo com seu ser. A transformação do estuprador de sua filha na aparência da esposa é um exemplo explícito, mas o se tornar um cirurgião plástico já é uma maneira clara de denotar esta característica, tanto no que altera os corpos das mulheres à perfeição, quanto no que a carreira é lucrativa, dando-lhe a oportunidade de morar naquela mansão, colecionar obras de arte, carros esportivos, passar a tarde modelando um bonsai. Mas fiquemos na primeira: as mulheres. Esta de fato parece ser sua maior paixão, presentes já nas obras de arte, como as duas Vênus de Ticiano que aparecem mais tempo em cena.

Seu ideal de Beleza e Paixão parece ser sua antiga esposa, interpretada por Elena Anaya. Especifico o nome da atriz, pois esta é a aparência real e existente pela qual Ledgard, por assim dizer, apaixonou-se: ele se apaixona pela aparência de Elena Anaya, não importando sua alma, se seu nome é Gal, Vera, Elena, se interpreta a todo momento ou não. A morte de sua musa não era uma opção, e resgatada do fogo após sua fuga traiçoeira, começa a luta pelo retorno do seu bem estético-arquitetônico. Ela, num acaso, arrasada por culpa ou apenas pela perda de sua própria aparência, suicida-se, apesar do canto de sua filha, levando Ledgard aos cuidados da pequena alma de Norma que gera a loucura em seu interior, germinada com a semente da visão da explicitamente vazia morte da monstruosa mãe. Ledgard parece seguir sua vida como cirurgião plástico, enquanto cuida do legado e fruto de sua paixão com psiquiatras, pílulas, e quem sabe afeto. A primeira vez que a menina sai de casa é estuprada (na pele do cirurgião é assim que vê) enquanto ouve ao longe a música que cantava quando sua mãe desfigurada caiu morta em sua frente, e isso a leva a um buraco sem fim – e a uma janela, com seu fim inequívoco, a seduziu para seu vórtice, assim como fez à mãe.

Ledgard encarna a razão técnica. Aqui o acaso parece vir ao seu encontro e destruí-lo em seu ser: o homem ativo que modifica o mundo de acordo com seu ideal belo, enquanto puramente aparência. O acaso desfigurou a esposa e a fez se suicidar, assim como à filha. As duas, enquanto coisas de que cuidava, escapam do controle aparente de Ledgard. Mas esta é uma ilusão de nosso ingênuo romantismo: o acaso  nada destrói. Precisamos nos fixar na pele do cientista inescrupuloso: ele se volta apenas para o externo. A ciência pode ultrapassar a morte: sequestra o estuprador de sua filha, modifica seu externo para que se torne idêntico à Elena Anaya, e o mantém em uma jaula luxuosa, instalada como uma obra de arte, com fins aparentemente masturbatórios.

Na pele de Ledgard, o ideal de belo volta-se todo na aparência, assim como toda sua ação e todo seu ser. Dentro desta pele, sua pena é justa. Todo o externo mostra o que ocorreu, e as consequências externas, a subsequente loucura e suicídio, acaso ou não, são reais e existentes. Não se julga a intenção em momento algum. Tudo que ele pergunta ao garoto é se ele havia mesmo estuprado sua filha, e este responde que não lembra (do externo, consequentemente inferimos), por conta das drogas que tomara, fazendo com que se mantivesse em si (sem conseguir reparar no mundo exterior). Não pergunta em seguida se quis, ou não, se foi acidental, ou não. Sua moralidade julga apenas os atos e as consequências, não as intenções.

A pena encontrada foi a mudança de sexo e mantê-la prisioneira enquanto a observa, como a grande obra de arte que conseguiu produzir graças ao seu engenho. Perguntemos os motivos de tal peculiar e deliciosa pena: Será que o que ele queria era instalar mesmo uma obra de arte? Ou será que estava apenas sendo sádico com o estuprador de sua filha, e o acaso o levou a apaixonar-se? Ou ainda, estava sendo masoquista, unindo a imagem de sua esposa que o traiu desencadeando a loucura da própria filha e o estuprador e causador da morte da coitada? As perguntas podem se multiplicar. E creio que o interior de Ledgard é um grande mistério. Habitar a pele deste personagem é voltar o interior inteiramente ao exterior. Não busquemos as explicações, e sim o que ocorreu de fato exteriormente, independentemente de qualquer intenção dele.

A sua pena com o estuprador de sua filha foi transformá-lo em seu amor. Ele inseriu o réu no interior de sua família, suprindo a sua solidão de modo central. Os modos como fez isso podem ser julgados por quem busca seu interior, mas dentro de sua pele, devemos compreender que nada poderia ser diferente: ele é este ser que quer alterar o mundo em sua volta como seu ideal de Beleza. Num ato faz reviver todo seu mais intenso sofrimento e todo o mais puro amor em um único ser.  Seu ato de justiça é extremamente interessante, ao elevar o réu a todo seu ideal de amor no mundo. Antigas culturas inseriam o assassino de um membro da família dentro dela, substituindo, portanto, a perda da qual foi culpado. Isso me parece de uma elevação humanitária num ato de redenção sem limite.

Voltemo-nos agora para o segundo filme, habitando a pele de Vicente.

Diferentemente de Robert Ledgard, Vicente volta-se inteiramente ao interior. Ele está em pleno desacordo com o exterior, na mesma medida em que se interioriza, e não podemos dizer qual é a causa e qual a consequência.  É isso que quis dizer à filha e futura vítima, com “Sou diferente” – é alguém sensível, voltado à própria interioridade que não encontra apoio no mundo externo, sempre opressor. O fato de tomar drogas chega a ser um estereótipo desse caráter. Se Robert Ledgard se joga ao mundo externo de maneira completa, com o sequestro e o que decorre disso, o menino se volta de modo perfeito ao interno no mesmo ato: com as aulas de ioga subsequentes e a produção artística, encontrando seu lugar interno. A arte que produz mostra esse gritante interior, inofensivo e em desacordo com tudo. É uma boa forma contrapor Ledgard e Vicente pela arte que produzem, e, no caso do primeiro, que também consome.

Mas voltemo-nos ao crime. A intenção de Vicente era transar com a menina, mas não pôde ver que ela não estava de acordo com isso. Ela começou a tirar as roupas indicando, a ele, o início do sexo. Mas isso foi mera aparência, pois internamente o tirar de roupas, a ela, representava algum tipo de ato simbólico de libertação. Apenas o acaso fez com que a música cantada ao fundo fosse a mesma canção que entoava quando sua mãe morreu, fazendo com que a desconfortável situação tornasse-se insuportável, gritando e enlouquecendo, no momento em que perdia a virgindade.

Se encarnarmos a pele de Vicente, e seus pressupostos morais subsequentes, ele julgaria apenas o interior, a vontade – e dessa forma o julgaríamos por si mesmo – como parece que ele faz, culpando-se interiormente por ferir o interno de Norma ao mesmo tempo em que sente a inocência dentro de si mesmo. A pena parece-lhe dura demais, a culpa interna que direcionou a si mesmo começa a perder sua potência e, revoltado, simula no exterior os traços do amor e da paixão, para sorrateiramente colocar Ledgard em seu momento mais vulnerável, assumir a dissimulação dizendo simplesmente “eu menti” e atirar, deixando o cientista, tão ingênuo em simulações – pois parecia dar pouca conta de tudo que é interno, a não ser, quiçá, os mistérios de sua própria lacônica alma – , sem entender o porquê da traição.

Este é o momento em que Vicente toma a primeira ação em sua vida, como se fosse preciso esta situação extremada para fazer mover o sensível rapaz. Vicente se recusa à sua pena, se recusa ao destino que o mundo lhe impôs e retoma sua vida agarrando um acaso. Apenas esse ato, que renega toda a sua natureza, faz a vida lhe dar um salto à frente, não atrás. Antes estava insatisfeito com sua vida, queria fugir de casa. Mas apenas o cirurgião conclui este plano que seu interior jamais poderia realizar na exterioridade, e o faz encontrar sua essência em sua interioridade, na arte e na ioga. Nesse sentido, Ledgard, sem intenção alguma, servo do acaso, foi como que um pai ou mestre. É como se, antes da trama, Vicente houvesse feito um acordo com Mefistófeles e pedido que seus desejos fossem realizados, sem especificá-los. Pois o que ele queria era sair de casa e ter uma mínima chance de conquistar Cristina, que pareceu um tanto interessada, ao menos na aparência de Elena Anaya. Vicente, por si mesmo, jamais iria sair de casa, e muito menos recorreria a uma troca de sexo.  Não sei se foi o destino ou a sua ação que trouxeram seu final feliz, e o mesmo se pode dizer sobre o final infeliz de Ledgard. Parece que perdi meu fio condutor, de me direcionar para a questão de sua inocência ou culpa. Mas buscar a culpa é o que se perde, vestindo as peles de Vicente/Vera. Seu interior era inocente, apesar de inflamado, e as consequências de seus atos foram acasos decorridos de uma má interpretação. Na pele de Ledgard, as causas e consequências do mundo exterior a si são julgadas e modificadas a sua plenitude. Apenas Ledgard é, em seu mundo, e o exterior é mera aparência disposta a seu deleite. Ele jamais faz a culpa recair em si mesmo, jamais assume sua parcela na causalidade externa do mundo, pois é seu centro.

O próprio Vicente não sabe se é inocente ou culpado. Estar em sua pele é abandonar esta questão, como ele faz. Ele dá um salto, deixando de ser uma vítima ou um réu do mundo, um salto que significou seu próprio amadurecimento. Ele agora deixa de ser um garoto e torna-se uma mulher.

Nobembro/dezembro de 2013

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