A serviço da dúvida

Editorial

Este periódico chega a um fim de ciclo. Nascido sob a atmosfera pós-mobilização de 2011 (o confronto com a polícia militar em 27 de outubro, as subsequentes ocupações da administração da FFLCH e da reitoria, a greve), ele se propunha, de acordo com seu primeiro editorial, a “expor as tensões dos nossos corredores”, a permitir o “acúmulo concreto de posições críticas”, recursos à disposição para os “momentos de decisão coletiva”. Pois bem: após cerca de dois anos e seis edições, o Discurso sem Método retorna àquela atmosfera, a este ponto em que as tensões precisam menos “ser expostas” — porque vibram por si próprias, independentes do nosso consentimento — e mais esclarecidas. Em que existe um tal coisa como o coletivo — ou, ao menos, um momento no qual cambaleamos na direção do que seja uma comunidade. Que posições críticas elaboramos?

Em um sumário impreciso, pode-se dizer que entre o que fizemos está a digestão do fato do movimento de 2011 ter falhado. Em “Erro de Cálculo do ME ‘da USP’”, do nº2, Inauê Taiguara afirma: “O ME não foi capaz de convencê-la [a sociedade] da importância da pauta”; “não souberam elaborar, organizar e apresentar a sua luta”. José Calixto ecoa o diagnóstico, na edição nº3, em “Por um Engajamento Político Amplamente Social: “O movimento estudantil não soube levar sua pauta para a sociedade. Fechou-se em si mesmo e foi derrotado”. A questão permanece: hoje, estamos comunicando os temas em pauta? Consegue-se transmitir as ideias entre grupos distintos, dialogar e conquistar apoio?

Mais estruturais, mas ainda nesse sentido, dois artigos do nº1: André Scholz, em “Qual é o Papel das Instituições Estudantis?”: “Há uma clima de despolitização e incomunicabilidade entre os estudantes (apenas entre nós?). Cada qual discute com suas próprias categorias e ninguém utiliza categorias que não as suas próprias”; e Marcelo Soares, em “Organizados e Independentes, ou um pouco antes”: “A necessidade de unidade no movimento estudantil não pode ser mero discurso bonito e bem recebido, mas própria condição de decência na atuação política. (…) Perdemos muito por vaidade e por não sabermos conversar”.

Além da comunicação, se questionou a autoconsciência do movimento estudantil. Rafael Zambonelli, em “Do Cinismo do Movimento Estudantil”, do nº0, fala de “perda da dimensão histórica”: “Enfatizamos nossas pretensas vitórias, lançando ao esquecimento nossas derrotas — a consequência é a normalização e a aceitação tácita daquilo que nos derrotou (a título de exemplo: ninguém mais se levanta contra os muros ou a Univesp, etc. Será que daqui a alguns anos, se dará a mesma coisa em relação à PM ou ao novo regimento da pós-graduação?)”. Qual a resposta a essa última pergunta?

Tudo isso desagua em junho, no “vislumbre quase alucinatório do ressurgimento de processos de luta popular” em junho, como descrevem Mariana Luppi e João Pedro Bueno. É neste texto do nº5, “Pensar a Organização: Lições de Junho”, que lemos: “Movimentos massivos tendem a ter esse efeito: por um lado reacendem nossas esperanças (…) por outro, colocam em cheque as preconcepções estratégicas e táticas da esquerda (…) tirando-nos do estado frustrante porém confortável do movimento em períodos de calmaria, em que não precisávamos questionar o sentido, a necessidade e o caráter de nossas organizações (…)”. Um slogan difundido por setores do movimento estudantil tentava fazer crer que as mesmas forças que preencheram as ruas juninas surgiam na USP. Se assim for, é de se perguntar se a mesma autocrítica, o mesmo conflito interno, surgirá.

Que posições críticas elaboramos? — agora com o cuidado de compreender este verbo em tempo presente. “Ciclos”, abstrações que são, só se encerram para que se iniciem outros, e este periódico é agora feito no calor de uma greve, à beira de uma ocupação de Reitoria, nos intervalos das assembleias de curso e gerais.

Os debates que ocupam ou invadem nosso cotidiano chegam a estas páginas em uma série de textos. Seu tema central, a organização decisória da universidade, é tratada no artigo “A Autonomia Universitária e a Estrutura de Poder na USP”, de Monica Marques. Menos analítico, mais manifesto, “Por que Lutamos”, de Inauê Taiguara, reforça essa mesma discussão; ainda outro texto deste autor procura o consenso com seus opositores pressupostos: “Para um Diálogo com Quem só Vê a Pedra no Meio do Caminho” é fundamentalmente sobre princípios e traz pelo menos uma grande pergunta: “Queremos normalidade para chegar onde?”.

Segue por essa via “Recordar para não repetir: o Regimento Disciplinar da USP”, de Maria Rita Morita, que ressalta as ligações históricas da universidade com a ditadura militar ­— e o que persiste dessas ligações ainda na atualidade. “Greve e Ocupação”, de Caio Sorio, discute os métodos do movimento estudantil e aponta a possibilidade de experiências de vivência e organização comunitária existentes nessas estratégias (na ocupação, por exemplo). Possibilitar essas experiências, segundo o autor, já são vitórias do movimento.

No caminho da análise que indicamos na retrospectiva do início deste editorial, “A Crítica do Movimento Estudantil”, de Matheus Ichimaru, quer “compreendê-lo [o movimento estudantil] no interior de suas contradições, de suas deficiências e fragilidades”, em uma “tentativa de agregar; de enriquecer; de fortalecer; de ampliar o domínio da luta e as frentes onde ela se trava”. Matheus fala dos “gargalos” e de um “aparelhamento” do movimento, se precavê contra uma “caça às bruxas” – e propõe uma solução “republicana”.

Saindo dos muros uspianos (ou nem tanto), Orlando Pimentel procura explorar: “Por que o Black Bloc é como é?”. Já o correspondente internacional Lucas Paulo nos envia uma tradução de Jacques Rancière, “10 Teses Sobre a Política”.

Em “A Biblioteca”, de André Braga, parte das conversas de corredor para realizar uma crítica à naturalização de problemas por parte de procedimentos “técnicos” — nesse caso, os “guardadores de mochila”. Neste tom de dia a dia, uma carta que publicamos por engano (desculpem), “A Uma Leitora”, de André Paes Leme. (André, Manuel Bandeira, em agradecimento pela citação tão cordial, lhe envia esses versos: “As almas são incomunicáveis. // Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. // Porque os corpos se entendem, mas as almas não.”)

Parece causa perdida chamar os estudantes à participação de modo geral e à colaboração com esse jornal em particular — mas estejamos em defesa de causas perdidas: este Discurso existe (ou pretende fazê-lo crer) por um aprofundamento da troca de ideias, do senso de comunidade e da formação (em sentido amplo, amplicissímo) dos alunos de Filosofia. Escreva, combata. Sem método mesmo.

Novembro/dezembro de 2013

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