A uma leitora

Por André Paes Leme
“A arte de perder não é nenhum mistério
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.”

(Elizabeth Bishop)

ilustração a uma leitora

Embora seja certo que (quase) ninguém mais se lembre, tive, há não muito tempo, a honra de contribuir com algumas modestas páginas nas primeiras edições desta publicação. Tempo este em que o Discurso sem Método ainda sonhava em ser um mensário (e eu até mesmo defendia, utopicamente, a quinzena como intervalo perfeito entre uma edição e outra) e se chamava Jornal da Filosofia. Ainda que o primeiro nome, como ocorre com tudo que é provisório, me aprouvesse mais que o definitivo, a recordação de ter continuado a contribuir com alguma coisa aqui e outra ali não me é estranha (no entanto, é preciso salientar, seus olhos, caro leitor, jamais chegariam a passar por essas folhas sem o empenho dos colegas revisores, dos diagramadores, da gestão do CAF e, por último, mas não menos importante, de um reconhecido esforço pessoal do intrépido Inauê). Nesse contexto, tendo visto este periódico – que alguns meses atrás (ou será que já passou um ano?) parecia apenas mais uma ideia destinada ao sono longo e indolente das frias gavetas – tomar forma e fôlego; tendo visto a quantidade crescente de contribuições que, inclusive, já extravasaram os estreitos corredores do prédio do meio, pensei que deveria poupá-lo, amigo leitor, do esforço de pular, edição após edição, as páginas modorrentas e pretensiosas que se seguem (ou se encerram, esta deliberação cabe geralmente à Mônica e ao Duanne) à minha desimportante assinatura. Assim, era com a sensação de dever cumprido (quem explica as sensações, não?) que pensava em me recolher à posição mais nobre, isto é, a de um contumaz leitor desse nosso agradável jornal.

No entanto, sua repentina descoberta, cara leitora (a do título, conquanto, conforme é certo, seja a única, distinções formais se impõem como necessárias), acabou por forçar-me a preencher novamente este espaço com essas minhas linhas tão mal traçadas. Em primeiro lugar, devo admitir não ter sido pequena minha surpresa quando, em meio a tantas saudades (elas, que insistem em nunca morrer), você, do alto dessa “sua infinita volubilidade de pássaro”, deixou como que escapar: “Li todos os seus textos no Jornal da Filosofia”. Sei que é um tanto ridículo, mas por um instante, envaideci-me de um ausente pendor para as letras… logo eu, cujas confusas vírgulas tanto trabalho dão aos simpáticos colegas revisores. Como havia dito mais cedo, mas ainda naquele dia, minha maior frustração é não dispor do menor talento para a composição literária. E como o mundo é estranho, não? Daquela minha clara confissão de derrota recolhi um prazer enigmático. Explico-me: é que você se espantaria se pudesse ter contemplado sua própria expressão facial no momento em que descobriu que não era seu, mas da literatura (Ah! Essa velha musa, sempre tão jovial!), o primeiro lugar no pódio das minhas frustrações… De tudo isso, contudo, o que importa é que cá estou eu, uma derradeira vez, a escrever-te.

E por que escrevo, pergunto-me? A resposta é simples: escrevo porque há coisas que não se deve dizer, que não se prestam a serem ditas. Sócrates e Fedro que me perdoem, mas falar não é mais que fazer charme, é algo um tanto sujo e até mesmo baixo. Sinto que preciso escrever, pois, quando Theuth, como nos conta Platão, inventou a escrita – ele não sabia, acreditava que ela apenas funcionaria como um remédio contra o esquecimento – trouxe à luz uma miríade (alguém um dia me falou que não há palavra mais pedante do que esta, mas o que posso fazer…) de sensações e impressões desconhecidas, além de intermináveis nuances àquelas de que nós, os humanos, já dispunhamos. Escrevo, pois, nuances como a perfeita coincidência entre meu estado de espírito e o azul daquele seu vestido – isso  para não falar no inexplicável brilho da sua pele sob o sol de uma cálida manhã de sábado – parecem pobres demais quando enunciadas pela banalidade das cordas vocais; pois, pequenos milagres, como a rotação freneticamente precisa dos seus olhos diante das crianças que brincam, mordem e choram, perderiam toda sua vivacidade se expressos por palavras que o amansado soprar dos ares levaria para além do limiar de uma promessa. Escrevo, enfim, porque, por ser pura (re)criação, e não fixação de coisa alguma, a escritura é a única saída para o angustiante dilema de Crátilo, o pobre seguidor de Heráclito, que, como nos relata Aristóteles, atônito diante da perpétua mobilidade do sensível, viu-se obrigado a abandonar o uso das palavras e a “somente apontar o dedo”.

Um ano, cara leitora, não é longo, mas é muito tempo. Tempo suficiente para “amar, desamar, amar” e, quem sabe, ainda uma vez, de novo… Mas sem nunca esquecer que, de todos os plurais, o do amor é o mais ilusório. Um psicanalista, desses que você admira, já disse uma vez que, no amor, o primeiro repete o último, lembra? Ora, é por isso que não há mais que um, e que todos os outros que por aí vemos, seja caminhando de mãos dadas nos parques, ardendo na perfeição casual daquelas esquinas próximas às escadas do metrô, abrindo-se em flores no alto dos prédios e até mesmo adornando, nos cemitérios, as sepulturas de suas vítimas, são apenas os traços visíveis da difícil natureza do Outro impregnada pelos contornos (sempre diversos) do Mesmo. É por isso também que todo amor é “amor sem conta,/distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,/doação ilimitada a uma completa ingratidão”. O que é só a forma mais poética que conheço para o adágio segundo o qual amar é empenhar ao outro aquilo que não se tem, isto é, ir além de si mesmo, de seu narcisismo e seus interesses mesquinhos (e, ao mesmo tempo, o que pode nos tornar mais mesquinhos?).

É preciso, querida leitora, levar a sério, por pelo menos um instante (e como levei tempo em busca dele), esta hesitante nebulosa de ideias incertas. Se não há amores, e sim um único amor do qual todos os que subsistem sobre a superfície do que é vivo se caracterizam por serem a repetição, então é também permutável seu objeto. Ou melhor, a essa altura, já não mais há objeto, na medida em que se relativiza a própria posição do sujeito mediante o qual ele se poria como tal. Estamos todos, agentes e pacientes dos afetos (inclusive as coisas inanimadas), recolhidos à potência aparentemente inesgotável de uma única repetição, sempre diversa, embora única… um eterno lançar de dados. Disso decorre que o desejo apareça como uma questão de “entrar” e “sair”, ou seja, de “passar”, “escorrer”, “fluir”. Ou, se quisermos, cara leitora, usar palavras difíceis, o desejo é sempre uma questão de territorialização e desterritorialização. O delírio amoroso não delira apenas sobre algo ou alguém, mas sobre uma paisagem no interior da qual algo ou alguém lentamente se singulariza. Daí a minha longínqua intuição sobre suas variações climáticas, sobre a fauna e, principalmente, a flora que habitam as regiões mais remotas da insondável geografia do seu corpo. Porque desejar é construir, e construir, ao mesmo tempo que significa perder contato com a “realidade” de alguém (como naquele poema que você gosta), também aponta para uma verdade à qual esse alguém está longe de poder ser indiferente.

Por esses, mais que por outros motivos, minha cara, é que tornou-se imprescindível revê-la. Porque a cessação e a ruptura ativam as piores armadilhas quando se entrincheiram em nossas memórias. Um certo masoquismo das reminiscências, aliado à tormentosa profusão das distâncias, faz com que nos esqueçamos, às vezes, de que o amor não é mais que uma cega confiança nos poderes do acaso; e que, muitas vezes, no que concerne ao amor, para cumprirmos a velha lição da Ética, aquela verdadeira “guerra das alegrias contra as tristezas”, e passarmos a agir mais do que padecer, é preciso que estejamos à altura da mais imponderável tarefa, isto é, que não recuemos diante da necessidade de “amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa/amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita”. Um reencontro, é essa a significação última da fidelidade a um bom encontro. Isso não quer dizer simplesmente não renegar um determinado conjunto de experiências passadas, um encontro é algo muito maior que uma experiência (ou um conjunto delas), é algo da ordem do acontecimento, que, por sua vez, permanece completamente inacessível, opaco, fechado em si mesmo, mas cuja realidade são todas as múltiplas consequências que ele arranca ao passado e atira em direção ao futuro, quer dizer, em direção ao próprio caminho pelo qual flui o que conhecemos como vida. E que fórmula melhor pode haver para a vida, a não ser: “não querer nada de outro modo, nem para diante, nem para trás, nem para toda eternidade. Não meramente suportar o necessário, e menos ainda dissimulá-lo (…), mas amá-lo”?

PS: Creio ter me alongado bem mais que o conveniente. E olha que nem deu tempo de escrever sobre a terrível inveja que senti da Giulia (nome inventado, claro), minha cara… Pensei que, pelo resultado final, deveria ter destinado apenas ao teu email estas linhas. Mas, agora, já é tarde: acabei mesmo por enviá-las ao email do CAF e deverão ser publicadas naquele jornaleco dos estudantes. Bem que eles podiam perceber que se trata de um engano, mas, como vivem sempre à cata de textos, creio que não perceberão. Pensei também em enviar outro email para alertá-los, contudo já sei a resposta:

“- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.”

PS (2): Se você está lendo isto, mas não é a minha leitora, bem, é provável que você, como ocorre com todos os meus outros leitores, exceto ela, não exista. Mas, caso eu esteja errado, o que, nesse ponto, é muito improvável, não se preocupe. Se já não for o caso da atual, na próxima edição do DSM, no máximo, haverá um diagnóstico que contemple indivíduos como eu. Você sabe, esses que costumam apropriar-se de uma importante ferramenta de comunicação crítica e lúcida sobre os problemas não apenas do curso e da universidade, mas de nossa sociedade como um todo, para discorrer sobre suas pequenas (e burguesas?) catástrofes cotidianas.

 Novembro/dezembro de 2013

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