Greve e Ocupação: Métodos de Luta do ME

Por Caio Sório

Na quarta-feira 02 de outubro, um dia após a ocupação da reitoria e da deliberação de greve na assembleia geral , xs estudantes de Filosofia decidiram por se incorporar a esse movimento e paralisaram as suas aulas também. A partir disso, foi reacendido o velho debate acerca dessas duas metodologias de luta. Se por um lado muitas críticas tecidas à greve e à ocupação eram na verdade críticas às assembleias enquanto modelo organizativo e fórum deliberativo – afinal, como elas podem elas ser legítimas se contam com um baixo percentual de estudantes participantes? -, por outro, haviam questionamentos sobre a eficácia e até sobre a “veracidade” desses métodos enquanto pertencentes ao Movimento Estudantil. O primeiro lado da moeda, as críticas às assembleias, não será um dos objetivos desse texto – mas não me nego a adiantar que, a confusão desse caso reside no fato de se usar um raciocínio baseado no conceito de representatividade para se julgar uma situação de democracia direta -, muito pelo contrário, gostaria de discorrer brevemente aqui sobre as ocupações e greves estudantis, tentando demonstrar como as críticas que são feitas a elas são fruto de uma interpretação dos fatos que ignora uma boa parte de nosso cotidiano enquanto estudantes.

Geralmente as questões levantadas nesses momentos podem ser sintetizadas nas seguintes perguntas: as greves e ocupações estudantis podem realmente nos levar a vitórias? Quando fazemos greve, não somos nós xs únicxs prejudicadxs? Nota-se então, como a primeira pergunta refere-se à eficácia ou não do método, e a segunda ao pertencimento ou não dele à categoria estudantil. A primeira pergunta gostaria de responder com uma piada: as únicas certezas que temos quando há uma greve é que teremos piquetes e fura-greves, o resto é contingente. Pode parecer displicência de minha parte responder dessa forma, mas de fato se há algo que aprendemos desde que Rodas sentou-se na cadeira de Reitor é que tudo é possível nessa Universidade, que vitórias e derrotas tem quase a mesma chance de acontecer para ambos os lados, ou por acaso alguém previa que a justiça não concederia a reintegração de posse ao todo-poderoso Rodas? Mas é importante ainda complementar essa resposta, não só não podemos ter certeza da nossa vitória, como o sucesso de uma greve e ocupação não dependem exclusivamente da conquista de nossas reivindicações. E para melhor desenvolver esse raciocínio é necessário que a segunda pergunta seja respondida.

O questionamento de se os dois métodos de luta – greve e ocupação –  pertencem ou não ao Movimento Estudantil, é normalmente baseado em algumas premissas como: o Movimento Estudantil faz uma transposição errônea da luta de classes entre trabalhadorxs e burguesia para estudantes e professorxs, nesse sentido, param de estudar como se parassem de trabalhar, mas o estudo não é trabalho e o estudo interessa mais à/ao estudante do que à/ao professorx; a força da greve dxs trabalhadorxs reside na interrupção da produção, quando estudantes param de estudar não há efeito direto no capital e, portanto, não se estabelece uma pressão frente a ele. Antes de tudo, é preciso dizer que essa divisão é meramente um recurso metodológico e que, realmente, essas premissas são duas partes de um mesmo raciocínio, de modo que, uma invariavelmente implica na outra. Tendo isso em vista, a resposta a essas premissas deve se dar em bloco.

Admito de antemão que qualquer transposição da relação de classes para relação entre estudante e professorx não é somente mecânico como simplista. Porém, acreditar que a relação estudante-professorx não é de modo algum permeada e saturada por uma relação de poder, na qual x professorx se sobrepõe à/ao estudante é não somente simplista, como evidência uma grande ignorância acerca dessa relação. Afinal, quem seria levianx a ponto de dizer que estudante e professorx estabelecem uma relação horizontal, sem nenhuma forma de dominação? Desde pequenxs somos criadxs dentro da disciplina escolar e isso não muda , apesar de diminuir em alguns casos, no ensino superior. Durante toda a nossa vida escolar somos moldadxs, podadxs por instrumentos disciplinares, como horários de aula, datas de trabalhos e provas e conteúdos estabelecidos como certos. Nesse sentido, apesar de importantes, em alguns momentos, as aulas não somente não são o único componente do estudo, como muitas vezes são um empecilho para tanto – quem nunca ficou divididx entre ler o que julga importante para sua formação pessoal e o que lhe é requisitado pelo programa do curso? Quem nunca teve de faltar à aula para terminar um trabalho, ou mesmo colocar sua leitura em dia, ou, para sermos sincerxs, para estudar?

Dessa forma, quando paralisamos nossas aulas estamos muitas vezes criando novos espaços que nos possibilitem novas maneiras de pensar, novas maneiras de estudar e buscar o conhecimento que não sejam pautadas no nosso calendário escolar, nas datas de entregas de trabalhos e provas. Estamos assim, criando novas formas de viver o mundo e de estabelecer relações sociais que não estejam amparadas na velha forma acadêmica, na forma atual de ensino mercadoria ou na tão conhecida forma capitalista de relacionamento humano. Estamos ainda, demonstrando, ou pelo menos tentando demonstrar, que nós, estudantes, podemos tomar as rédeas do nosso cotidiano e organizá-lo, que não precisamos de professorxs e burocracias universitárias para dizer o quê, como e onde estudaremos aquilo que nos interessa e julgamos importante. Estamos abrindo, portanto, todo um leque de possibilidades que antes haviam sido tomados de nós pelas regras e regimentos institucionais. E é a ocupação o espaço onde isso pode melhor se concretizar, pois é ela tanto o local de encontro de pessoas de passados e presentes diferentes, como é nela que podemos levar ao máximo essa apropriação de nosso cotidiano, sendo que ali não somente organizamos nossos estudos, como a nossa alimentação, a limpeza de nosso espaço e tudo aquilo que está implicado em nossas vidas.

Mas e aí – podem perguntar algumas pessoas – onde isso pressiona o capital? É claro que experiências como essas não exercem uma pressão contundente no sistema estabelecido, e de modo algum quero dar a entender que ameaçamos verdadeiramente o capital quando ocupamos e paralisamos nossas aulas. No entanto, não podemos ignorar também que todas as possibilidades e novidades listadas acima dão margem a um novo tipo de relação social que se contrapõe diretamente à tradicional forma capitalista das pessoas interagirem e se organizarem entre si. Quando xs estudantes se unem na ocupação e se organizam em torno dela mantendo sua limpeza, alimentando-se coletivamente, programando atividades para sua formação e entretenimento e estabelecendo fóruns comuns de discussão e deliberação, um grande passo é dado contra a divisão social do trabalho – entre manual e intelectual – e a divisão social entre mandante e mandadx. Muitas relações de poder e dominação típicas da sociedade capitalista-estatista-patriarcal são combatidas no interior dessa experiência que traz uma nova compreensão de como devemos e podemos nos organizar.

E é nesse sentido que digo que o sucesso de uma greve e uma ocupação não depende exclusivamente da conquista de suas pautas. Afinal, com elas conseguimos toda uma ruptura, mesmo que momentânea, que nunca seria possível se continuássemos a ser pressionadxs por nossa instituição universitária e tudo que está implicado nela. E essa ruptura, mesmo quando nossas pautas não são atendidas e a derrota parece ser a única interpretação dos fatos, gera frutos e é grande fator de conscientização das pessoas enquanto capazes de tomar para si o seu cotidiano.

Novembro/dezembro de 2013

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: