Onze poetas

Por Ari Marinho Bueno

“O essencial da arte é exprimir; o
que se exprime não interessa”,
Fernando Pessoa

 

I

O primeiro poeta estava escondido atrás de uma grande porta branca, e fazia de seu batente uma expectativa de redenção; com seu corpo defenderia o corpo vivo (eram um só, assim cria) dos outros dez.

Uma porta é um lugar que separa dois outros, ele dizia.

O fundo deste quadro pode ser verde.

II

Um corredor à direita da porta, e que conduzia ao outro lado (seria a um dos lados do real?) – , era onde estava o segundo poeta.

O palco (verde) era para si ir e vir, e rápido.

Assim, egocêntrico dos outros dez, dali exauria-se até protegendo, até atacando. Queria saber tal qual os números, tal qual o tempo.

III

Último homem a destruir, se preciso for; se preciso for último homem sobre a face do chão verde à frente do homem atrás da grande porta branca. A marca que traz no braço poderia ser uma cicatriz, mas enfaixa apenas sua alma.

Sua altivez tem algo de drástico, sabem os outros dez. Este é o terceiro poeta. Perdoai-o, Senhor, ele não sabe o que faz.

 

IV

Atônito à própria presença ali, o quarto poeta é mais jovem e mais alto que todos os outros dez. Súbito entre os escolhidos que o duvidam, sabe conduzir-se como deles poucos no plano, o verde.

Será protagonista de uma obra inacabada, sabemos, que é impedir a criação do alheio contrário a si, a vós. Ele é experimentado, para menos.

V

Pela esquerda da grande porta branca, correndo risco o quinto poeta. Ser agredido ou agredir, sinal de ruindade? Prefere vencer a ser esquecido.

Cabeça baixa, fixando o verde, jaz sua habilidade – lado esquerdo de seu corpo, o muito que lhe querem os outros dez. O lado esquerdo de seu peito não é estar recuado. Recusa a ser recusado.

VI

Meio caminho entre a grande porta branca, sobre o tapete verde, e o limitado dos seus recursos, ainda assim o sexto poeta sabe o que fazer. Ocasião para mostrar, sem falta, sua experiência. Chamaremos a isso valentia.

Tem fôlego para gritar e gritar pelos dez outros, nós a desfazer. Quereríamos mais criatividade, mas não é obrigado a ser o que precisamos.

VII

Nos seus olhos de águia antecipam-se as ofensivas. Daí que os outros dez, quando postado onde deve, confiam. Pode livremente distribuir – tem destreza para – as estocadas contra a obra em aberto. Será esta uma vitória? Uma derrota?

O sétimo poeta é um postulado presente em todos os cantos do local, piso em verde, passos dinâmicos, rumo a uma grande porta branca. Outra.

VIII

Nada tem de ideológica aquela centro-direita: o oitavo poeta ali é feito um relógio.

Pelo seu ritmo os demais, os dez outros, se aventuram. Da fluidez com que as coisas se desenrolam, não há revolta diante da posição assim ocupada. Chão verde de passos, na velocidade da lentidão.

Destra confabulação de mágicas, seus passes.

IX

O nono poeta: sua condição é a ponta de uma lança.

Não há abrigo que aconchegue a grande outra porta branca, quando à sua frente. Crivada em sua metade esquerda, a argumentação se sustenta, crença nos outros dez. Ao desfilar seu rigor no improviso, faz do tapete verde um lugar, uma audiência.

Sem igual, saem dali parecidos heróis e vilões.

X

Salvo engano, tem ele liberdade para toda parte. Pela direita, pela esquerda. Pelo meio, entre os outros dez, até o escancaro da grande porta branca (seu batente).

É demais a redenção do décimo poeta – limpar o caminho rumo ao salto que evitará ou será inútil. É ele ou eles vingados, no tentar de um plano prenhe, verde de sentidos.

Os nomes de fora e as cores, a fase.

XI

Eu sou um poeta. Eu sou aquele que faz. Eu sou o único que pode decidir. Eu sou melhor que todos juntos. Eu garanto o nível deste espetáculo dantesco. Eu sou mais que tudo o que já quiseram ser um dia. Eu sei que eu sou uma coisa, e eu sei que os outros são outras coisas. Eu já fui um cara, agora eu sou maior que vários. Eu sei que todos queriam ser como eu sou. Eu sou quem tem que resolver. Eu sou um alvo. Eu sou um matador.

(Setembro, 2011)

Novembro/dezembro de 2013

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