Por que lutamos

Por Inauê Taiguara

ilustração por que lutamos 1Somos estudantes de uma universidade pública, considerada como uma das mais importantes da América do Sul, que nos últimos anos tem se preocupado mais em atender a interesses mercadológicos e subir em ranques internacionais, cujos critérios são majoritariamente quantitativos, ao invés de atender às demandas sociais apresentadas diretamente pela sociedade na qual a USP está concretamente inserida. Nós não concordamos com esse caminho que as últimas gestões da Universidade de São Paulo têm trilhado a ferro e fogo, utilizando-se para tanto inclusive de decretos promulgados durante a ditadura civil-militar para silenciar aqueles que denunciam e se opõem diretamente às mazelas de tal caminho.

No entanto, dentro da atual conjuntura, pouco podemos fazer senão nos manifestar e protestar contra tais rumos, e mesmo essas ações, asseguradas pela Constituição Federal, são para nós passíveis de punições – vide, por exemplo, o decreto 52.906/72 que proíbe manifestações ou propagandas de caráter político-partidário, racial ou religioso (art. 250) e que recorrentemente vem sendo utilizado para a “eliminação definitiva” (art. 249) de membros da comunidade universitária. A impossibilidade de intervir concretamente nos rumos da universidade se deve, sobretudo, à estrutura de poder da USP. Para exemplificar, essa estrutura é formada de tal maneira que quem está no poder (reitor) indica grande parte daqueles que terão o direito de escolher o próximo que ocupará o poder (membros do CO), o que gera um círculo vicioso que permite que a Universidade continue a servir a interesses de um grupo particular, interesses esses totalmente contrários à verdadeira função da universidade pública. Lutamos pela democratização da Universidade de São Paulo!

Chamamos atenção para o fato de que o conhecimento pode servir tanto para a transformação da sociedade e a superação das desigualdades sociais como para a manutenção de tais desigualdades. Isso depende de quem produz e de quem controla o conhecimento. Lutamos, sobretudo, pelo ensino público e de qualidade para todos! Dentro do contexto em que estamos inseridos, reconhecemos que estamos em uma das universidades mais elitistas do país e também uma das mais antidemocráticas.

“A USP é uma das universidades cujo funcionamento é um dos mais autoritários do Brasil. O caso da forma de eleição para reitor é apenas um demonstrativo de sua lógica: 98% das pessoas diretamente interessadas (estudantes, professores e funcionários) são excluídas do colégio eleitoral, que é alterado de 2% de participação no 1º turno para apenas 0,4% no segundo turno.” (GT Estatuinte, Informações para o debate sobre uma nova estatuinte na USP, 2012)

Ao reivindicar a democratização estamos, na verdade, dizendo a toda a sociedade: “Nós, 95 mil estudantes da USP, assumimos nossa responsabilidade diante do que a universidade faz e deixa de fazer, diante de seus êxitos e seus fracassos. Essa responsabilidade, porém, tem de nos ser reconhecida de direito! Queremos que nos seja assegurado o direito ao voto direto para os cargos de decisão, tais como Chefes de Departamento, Diretores de Unidade e Reitor da Universidade!” Ao contrário do que dizem aqueles que criticam a nossa mobilização, reivindicar o direito ao voto direto não é pedir privilégios e sim assumir responsabilidades e deveres diante da sociedade.

Por fim, vale dizer que a democratização da Universidade de São Paulo é de interesse de toda a sociedade e não apenas da comunidade universitária. A Universidade só poderá atender às demandas concretas da sociedade se lhe for assegurada a autonomia universitária. Enquanto a atual estrutura de poder e de decisão se mantiver, os rumos da universidade estarão atrelados a interesses mercadológicos que dão margem, por exemplo, a que suas produções estejam submetidas ao conceito de obsolescência programada ou então a interesses partidários, que buscam resultados rápidos (quatro anos no máximo) para utilizá-los em campanhas futuras, sem que isso signifique necessariamente a resolução concreta dos problemas reais e estruturais da sociedade – uma vez inclusive que a promessa de resolução de tais problemas é recorrentemente utilizada nas campanhas eleitorais.

Novembro/outubro de 2013

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