Por que o black bloc é como é?

Por Orlando Pimentel

Poucos leitores talvez tenham presenciado ou participado de uma passeata ou manifestação, revindicando uma pauta de interesse público. No nosso país e no mundo, manifestações ocorrem diariamente se opondo as opressões sofridas, de diversas formas, cujos alvos são trabalhadores, campesinos, jovens, negros, homosexuais, enfim, pessoas submetidas as estruturas densas de poder econômico-político que transformam a vida de todos nós a todo momento, por vezes sem percebermos.

Não obstante a diversidade de manifestações pelo mundo a fora, muitas pessoas, historicamente falando, debruçaram-se sobre essa diversidade de atos, tentando enxergar alguma relação que pudesse explicar por que, há tanto tempo, as manifestações públicas e legítimas de pessoas que se sentiam oprimididas pelo sistema dominante quase sempre tinham como resposta não a obtenção dos direitos requeridos, mas sim o gesto repressivo do Estado e da polícia… que só saberia dialogar através de bombas de gás lacrimogêneo e carícias de cassetete.

Uma das formas de luta nascidas dessas reflexões sobre o enfrentamento entre a sociedade em manifestação e o aparato estatal foi o Black Bloc (Bloco Negro). Geralmente, associada aos movimentos anarquista e autonomista da década de 80 em diante, ela se caracteriza por uma forma típica de atuação em manifestações coletivas públicas.

Nas passeatas e nas ruas, o B.Bloc, a olhos avessos a reflexão, pode parecer apenas como mais um bando de baderneiros. Infelizmente, a visão mais geral de qualquer manifestação pública é essa: “são todos um bando de baderneiros”, parafraseando um não-colega de profissão. Mas essa classificação só ocorre pois as manifestações e passeatas de estudantes, jovens e trabalhadores, em geral, trazem mensagens concorrentes àquelas alardeadas pela grande mídia e acabam, assim, questionando, ainda que pouco, o próprio poder dos grandes meios de comunicação em comunicar e mais ainda em identificar problemas de fato preocupantes para sociedade.

Apesar da mídia possuir a função de disseminar ideias, ela também as filtra, seleciona e pode também, com seu poder de capitação de imagens, registrar determinadas cenas ou não, torná-las públicas ou não. Imaginemos, por exemplo, uma manifestação reivindicando determinada demanda estudantil, que tenha a presença ilustre de repórteres de TV, e a presença ilustre, mas não convidada da polícia… Pois bem, em tempos de acirramento dos conflitos, como houve muitos em nossa história, os meios de comunicação de massa e o aparato repressor de ideias e atos agiram conjuntamente: os registros das cenas, que eram monopolizadas apenas pelos grandes meios de comunicação, jornais, e TV, serviam para identificar pessoas que estavam envolvidas com o movimento. O período da ditadura militar, em diversos países e aqui no Brasil, possui muitos exemplos dessa “associação”.

Partindo da análise de situações históricas, como essa, o movimento Black Bloc encontrou algumas possíveis formas de resistir a essa grande barreira que é o poder de identificar e punir exemplarmente pessoas que participam de manifestações públicas legítimas, adotando um modo e um objetivo, um meio e um fim: tanto para defender o direito que a passeata reivindica quanto para defender o direito ao ato em si.

O objetivo dos Black Blocs é deixar claro que as manifestações e reivindicações populares devem ter espaço na sociedade e devem expressar suas mensagens ao máximo possível de pessoas, sem que isso signifique um problema de legalidade. Indissociada, teórica e praticamente, desse objetivo, está a ideia de que os movimentos reivindicatórios acabam tendo sua autonomia limitada pelos conflitos sempre tão revisitados com a polícia.

O meio de agir dentro dessa situação conflitante, ao mesmo tempo em que prosseguisse a manifestação legítima, seria, surgido qualquer início de enfrentamento com a polícia, que o enfrentamento fosse um conflito em que os manifestantes não se isolassem ou agissem espontaneamente. A perspectiva é de ação sempre em grupo, mesmo para o enfrentamento. Assim é que se justificam as vestimentas, geralmente, pretas e os panos tão característicos dos participantes dessas manifestações. Eles servem para garantir a integridade contra as possibilidades de identificações isoladas. Um ativista de black bloc só quer ser reconhecido por sua pauta e é ela que impulsiona coletivamente os participantes do ato…

Posto isso, então, por que punir individualmente e exemplarmente um indivíduo de uma manifestação de luta por interesses públicos legítimos, como a necessidade de educação, o acesso a moradia, aos bens materiais mais básicos? Respondo imaginando que talvez seja essa a única forma de encontrar uma “ilegitimidade” no ato ou a única forma de fazer com que as pessoas, espectadoras do que se passou, engulam a idéia de que o protesto – como um todo – foi obra típica dos baderneiros de sempre. Pois, se há isolamento dos indivíduos no movimento, a mídia pode editar, recortar melhores enquadramentos da cena que favoreçam a imagem da polícia como mantenedora da ordem pública, etc… Apesar de sabermos que, há muito tempo, a ordem que a polícia defende não é nem um pouco pública: ela defende uma ordem privada que priva as pessoas do acesso a educação, a saúde, a terra, e a uma série de direitos inalienáveis.

Na verdade, o enfrentamento contra bombas de gás lacrimogênio, uniformes e balas de borracha é, de fato, apenas um episódio de uma luta muito maior, que se dá a todo instante, na nossa escola, no nosso trabalho, nas nossas vidas, a qual chamamos luta de classes e que se manifesta por diversas formas.

Novembro/dezembro de 2013

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