A nudez castigada do sujeito masculino: lancinho do tempo histórico

Por Caio Sarack

A reflexão vem pulsante, assim como a força explosiva que nos espreita na vida. Alguns autores dirão que Turma do Pagode é exemplo de diluição (verve poundiana), mas cá venho mostrar “que Lancinho”, produção agora de 2012, recente, mas não menos colada à realidade, é uma denúncia – de inspiração foucaultiana – do fim de uma epistème.

Já no início vemos agonizar o sujeito masculino. A vogal em repetição vem com a força de um simulacro, sem conformação ou fundamento, sem um Modelo. A vogal “u” nunca mostrou tanta vida. Ainda assim o sujeito com seu gênero explícito, desnudo (num termo perovazcaminiano: com sua vergonha à mostra) tenta reagir ao combate, ele não quer se igualar, não quer viver as dores da reificação de gênero que sofreu e sofre o feminino.

“Você sempre quis alguém que pudesse te fazer feliz”, impõe o sujeito masculino e ainda vocifera: “e esse alguém sou eu, precisa saber”(Pagode 1, 0:36). O Eu mais uma vez se afirma, quer a si mesmo forte. A atrofia do seu sujeito não é aceita, o potencial fascista de impotência de sua autodeterminação. Mas então ele se vê estanque no mundo, cavoca com os pés seu abismo: a mulher¹ tem um companheiro na vida. O Eu em questão quer justificar seu posto reificado, reluta, mais uma vez: agoniza. “Se ele não liga nem pra desejar um boa noite ou saber como está, por isso me liga querendo me ver” (idem ibidem, 0:52). Veja, caro leitor, ele quer ainda uma vez mais ter certeza que sua nudez não será castigada, no entanto se perde na síntese temporal do desejo e desvela a tensão: “E eu paro tudo pra estar com você, preciso te dizer: quero você” (id ib, 1:01-1:09), vemos aqui que o sujeito flexiona ao mesmo tempo um verbo de submissão e outro que põe diante de si (vorstellen) o sujeito/objeto² feminino.³

Agora, leitor que persiste, temos uma via não de mão-dupla, mas múltipla em suas mãos, depois da tensão acima exposta, explodem problemas dessa reificação do sujeito masculino, que sofre com os grilhões que ele próprio aprisionou o feminino. Veremos, neste que é o último passo do artigo proposto:

“Namora, mas adora um proibido. E eu que sou o culpado, eu que sou bandido? Prefere um romance escondido, sai na madrugada pra dar lancinho comigo.” (Pagode 1, 1:10-1:20)

O sujeito sugere uma subversão por parte do alter-ego. O Outro-Eu assume uma negatividade que denuncia a tensão que tentamos aqui explorar. O que é proibido, sujeito macho nu? Não tem resposta que satisfaça o inquisidor, posto que não há, desta vez, um inquisidor por direito (lê-se usurpação). O nosso sujeito-réu tenta mais uma vez: “eu que sou culpado, eu que sou bandido?”, desvela-se um argumento (não um julgamento), não há delito menor que este, conservar a potência, que continua a criar na obscuridade, na madrugada ainda existe o lancinho para se desvelar:

Pois há uma grande diferença entre destruir para conservar e perpetuar a ordem restabelecida. (…) Levantar um fantasma – a mais inocente de todas as destruições” (Deleuze 5, p 271)

Podemos facilmente dizer que não mais o platonismo, mas a mais inocente das destruições é hoje a do sujeito masculino que a tudo e a todos reifica, bom saber que esta é uma “força explosiva interna que a vida traz em si”(Deleuze 6, p. 57 da ed 2006).

Djibuti, 30 de junho de 2012.

Löwy Fidelix, por um aero-pensamento.

 

¹ Veremos como o sujeito feminino se afirma como alteridade, mas não negativa e sim positiva necessariamente.

² A tensão emerge à superfície com pathos.

³ Podemos notar isto em outras produções contemporâneas da poética turmapagodiana: “Se eu ganho um beijo seu eu vou até o céu”(Exaltasamba 2), a tensão dos dois verbos mais uma vez se nota. Outro exemplo, agora um pouco anterior, é “Vi a alegria voltar quando recebi um telegrama: você dizendo pra te esperar, que não demora e que ainda me ama” (Moleque 3), aqui se vê um desequilíbrio, o pêndulo parece ter parado em uma das extremidades porque o centro deste sistema descentrado foi deslocado e neste instante causou efeito.

 

Bibliografia

1. PAGODE, Turma do. “Lancinho”, 2012. DVD Ao Vivo CrediCard Hall.

2. EXALTASAMBA. “Se eu ganho um beijo seu”, 25 anos de Exalta. 2010.

3 MOLEQUE, Jeito. “Sobrenatural”, 2007.

4. FOUCAULT, Michel. Histoire de la Sexualité: La volonté de savoir, Paris, 1976.

5. DELEUZE, Gilles. Logique du sens, Paris, 1969.

6. ____________. La conception de la difference chez Bergson. In: DELEUZE, Gilles. L’lle deserte et autres textes: textes et entretiens (1953-1974).Paris: Les Éditions de Minuit, 2002.

7. PLATÃO, República, 400a.C.

 

Março/abril/maio de 2014

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