Acesso e permanência

Por Lucas Souza

 

( Esse texto corresponde à minha fala da ocasião da apresentação do curso de Filosofia pelos alunos do CAF na semana da calourada, nos dias  17 e 18 de fevereiro de 2014)

ilustração acesso e permanência

Para se falar em acesso e permanência na USP, é preciso partir de uma ressalva ou pressuposto. Esse pressuposto ou ressalva será compartilhado entre todos nós na medida em que o contato com a Filosofia imbuir em vocês o mínimo do pensamento crítico, qual seja: A Universidade de São Paulo é, para dizer o mínimo, elitista e racista.

O que significa partir dessa ressalva ou pressuposto, se quisermos pensar a questão nas respectivas chaves de acesso e permanência?

Para pensar na chave do acesso, questionemos os fatores que permeiam o ingresso de alguém em qualquer curso da USP, ou para o nosso propósito, no curso de Filosofia. A qual dos fatores podemos atribuir, por assim dizer, primazia? Estamos aqui hoje por conta de nosso esforço individual e inteligência? Ou estamos aqui pela forma como se organiza a nossa sociedade, isto é, de maneira extremamente desigual? Tendo a ir por esta última via.

Aqueles que estão nos extratos superiores das classes sociais usufruem ao longo de sua vida de bens que deveriam ser socialmente compartilhados como direitos: moradia, alimentação, educação, cultura, lazer e assim por diante. Ou seja, na sociedade da desigualdade brutal usufruímos de tais bens como privilégios. Se estamos aqui hoje é porque, ao longo de nossa vida, fomos privilegiados. Não somos mais inteligentes nem mais capazes – como talvez alguns de vocês tendem a pensar (ou seus pais, para esse fim). Sendo assim, o primeiro gérmen do pensamento crítico logo converte o orgulho do mérito individual em vergonha de privilegiados.

Talvez seja um clichê de cursinho popular dizer que o vestibular opera como um filtro socioeconômico – o que, não obstante, é verdade. Mas é mais que isso. Encontramos naquelas verdades – aquelas, sabe?  – que só são expressas nas paredes brancas, através incisiva inscrição negra da linguagem do picho, que “a USP é antipreto, antipobre, antipática”. É essa força, esse magnetismo social invisível que atua aqui o tempo todo. Ele ajusta os polos de tal modo que aqueles vindos dos extratos superiores das classes sociais sejam atraídos pela Universidade e os que vem dos extratos inferiores sejam dela repelidos.

Um estudo veiculado com o título Bairros de elite de SP dominam vagas na USP“, ao fazer um recorte de 10 anos de FUVEST, dirá que:

(…) Apenas uma rua, a Bela Cintra, na região dos Jardins, conseguiu, no vestibular de 2004, emplacar mais moradores nos bancos uspianos do que a soma de 74 bairros periféricos da zona sul. A Bela Cintra, porém, é apenas o caso mais vistoso de um quadro de hiperconcentração da oportunidade de acesso ao ensino superior público nas mãos de uma pequena parcela da população”.

Agora pensemos a questão na chave do da permanência, e em como tal força atua ajustada a visão do pensamento para esse aspecto.

O aluno pobre, negro, periférico, encontrará uma série de dificuldades para permanecer na Universidade. E isso não ocorre porque ele não tenha direitos de acesso à educação previstos, mas porque a própria USP, em especial na figura da Superintendência de Assistência Social, atua como uma interditora violenta de direitos. O aluno que precisa morar no CRUSP ou que precisa de auxílio aluguel (este último um auxílio quase irrisório) por vezes não conseguirá ter seus direitos contemplados (mesmo após se submeter a um tratamento extremamente humilhante e desumano junto às desassistentes sociais). Sua situação de risco por vezes não o permite engajar-se em lutas radicalizadas dentro da Universidades – lembremos por um momento que a moradia estudantil foi conquistada através de ocupações. Podemos abrir um parêntese e dizer que é fácil engajar-se em tais lutas com as costas quentes do pai endinheirado. É dessa maneira que esse aluno encontra-se extremamente oprimido e castrado na Universidade.

O aluno que se insere nesse background sócio-histórico também é repelido no curso de Filosofia, na medida em que o curso requer o domínio de várias línguas para se ter acesso a bibliografia que abrange textos (sem tradução) em francês, alemão, inglês, etc. Não obstante, há  o perfil de docente que permeia o estudo da Filosofia com mitos do suposto prodígio de uma inteligência superior (o mito romântico do gênio), quando na verdade se trata de um trabalho concreto que pode ser desenvolvido por qualquer um, desde que nos sejam apresentadas as ferramentas para realizar tal  trabalho. É assim que os alunos oriundos de escolas públicas sofrem dentro do curso uma espécie de bullying acadêmico, pois nossa formação básica é defasada. Não custa lembrar que o ensino público nos níveis básico e médio foi destroçado pela Ditadura Militar, tese que uma professora nossa gosta de lembrar quando é convidada a falar sobre formação básica.

Quem está acompanhando minimamente o centro acadêmico sabe que foi denunciado recentemente, através de um relato – publicado, inclusive, na Carta Maior -, a violência descalabrada sofrida por um aluno da Filosofia que teve o acesso aos seus direitos de permanência violentamente interditados. É nesse sentido que o CAF criou uma Comissão de Permanência para realizar a mediação entre a SAS/AMORCRUSP e os alunos que precisam dos auxílios de moradia, aluguel, transporte, alimentação, bolsa livros e assim por diante (comissao.permanencia@bol.com.br). Lembramos que o dinheiro que vocês gastarão em xerox não será pouco: fica a sugestão para uma nova pauta de luta, a Bolsa Xerox.

Sabemos ainda que em geral essa pauta não toca muito os alunos do curso de Filosofia. Grande parte de vocês está na segunda graduação. Outra grande parte de vocês vem justamente dos extratos superiores das classes sociais, dos colégios particulares, dos cursos de idiomas e intercâmbios. Todavia faço um apelo para que não seja apáticos a essa pauta. É preciso trair a classe. Assim, sejam antes uma classe média progressista que uma classe média apática e conservadora.

Gostaria de terminar minha fala com duas citações. A primeira delas, uma crítica que o escritor Lima Barreto* faz à Universidade Pública Brasileira, embora no contexto de seu advento e modernização há décadas atrás, penso que pertinente e atual:

“O nosso ensino superior que é o mais desmoralizado dos nossos ramos de ensino, que se impregnou, com o tempo, de um espírito de serviçal da burguesia rica ou dos potentados políticos e administrativos, fazendo sábios e, agora, privilegiados, seus filhos e parentes – o nosso ensino superior com suas escolas e faculdades não é mais destinado a formar técnicos de certas determinadas profissões de que a sociedade tem ‘precisão’. Os seus estabelecimentos são verdadeiras oficinas de enobrecimento para dar títulos, pergaminhos – como o povo chama os seus diplomas, o que lhes vai a calhar – aos bem-nascidos ou pela fortuna ou pela posição dos pais. Armados com as tais cartas, os jovens doutores podem se encher de várias prosápias e afastar concorrentes mais capazes”

Lima Barreto segue a crítica dizendo:

“O ensino primário, tem inúmeros defeitos, o secundário maiores, mas o superior, sendo o menos útil e o mais aparatoso, tem o defeito essencial de criar ignorantes com privilégios marcados em lei”

E termina com (a parte mais icônica, me pareceu):

“A maioria dos candidatos ao ‘doutorado’ é de meninos ricos ou parecidos, sem nenhum amor ao estudo, sem nenhuma vocação nem ambição intelectual. O que eles veem no curso não é o estudo sério das matérias, não sentem a atração misteriosa do saber, não se comprazem com a explicação que a ciência oferece da natureza; o que eles vêem é o título que lhes dá namoradas, consideração social, direito a altas posições e os diferencia do filho de ‘Seu’ Costa, contínuo de escritório do poderoso papai”. ³

A segunda citação da qual eu gostaria de me valer, é a de um professor já aposentado do Departamento de Filosofia, Franklin Leopoldo e Silva, em um texto chamado Universidade: a ideia e a história“:

(…) se não colocamos a própria universidade em questão, que sentido teria colocar em questão qualquer outra coisa a partir da universidade, isto é, a partir de uma certa inserção histórica e cultural que se expressa numa determinada maneira de investigar, de criticar, de conhecer e mesmo de propor condutas?

Fica o objeto de reflexão. Será ele digno das altas paragens de nossas ideias filosóficas?

 

* Peguei essas referências, descaradamente, do texto “Pensamento burocrático” do professor Pablo Ortellado, o qual li recentemente.

1 “As reformas e os ‘doutores’” Gazeta de notícias, 16 de janeiro de 1921 (este e os artigos seguintes de Lima Barreto foram recentemente publicados em Toda crônica (org. Beatriz Resende e Rachel Valença). Rio de Janeiro: Agir, 2004.

² “A universidade”, Gazeta de notícias, 13 de março de 1920.

³ “A superstição do doutor” Gazeta de notícias, maio de 1918.

 

Março/abril/maio de 2014

 

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