Afinal, quem decide?

Editorial

 

Este é o primeiro Discurso Sem Método a não publicar um texto que lhe foi enviado. Já no superficial do fato é algo que se apresenta como um problema para um jornal que se põe “a serviço da dúvida”, que pretende retratar as “tensões dos corredores do curso” e que se quer feito por todos os alunos da Filosofia. Não apenas por essa aparente ou real contradição (o que será decidido a seguir) poder ser usada pela retórica de alguns interesses específicos, porém especialmente pela definição do espírito dessa publicação, queremos abrir o debate ocorrido internamente a todos.

Debates que, com efeito, não ocorreram em um conciliábulo. O grupo de e-mails que é responsável pela produção do jornal é aberto a qualquer aluno. Se você entrar agora mesmo, verá todo esse histórico.

É bem verdade que falar em “debates ocorridos internamente”, em um grupo “aberto” para você “entrar” põem um dentro e um fora que complicam a situação das pretensões do jornal enunciadas no primeiro parágrafo. Além disso, sabemos que nem todos terão paciência de ler cada um dos muitos e-mails através dos quais vamos coletivamente editorando o jornal, e por isso, repetimos, a questão de como lidar com uma não-publicação (censura?) vai aqui exposta.

Não há regras a priori. Já foi discutido, em abstrato, o que fazer caso um texto claramente ofensivo nos fosse remetido. Ocorre que uma ofensa nem sempre é clara e distinta. Este jornal está se fazendo a cada edição, a cada decisão, da maneira mais democrática possível: com a colaboração de quem quiser (autores dos textos, diagramadores, revisores, basta participar). O Discurso via de regra (para não dizer sempre) publica todos os escritos enviados. Tratemos da exceção, o primeiro texto não publicado.

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O artigo “O Homem Sofre?” chamou a atenção porque se fazia o pedido de que fosse publicado anonimamente — por receio de represálias morais. Antes, textos sem um chamativo do tipo foram publicados com pseudônimo sem que a questão tivesse surgido: poemas, crônicas, basta acessar as edições antigas para vê-los. Além do pedido, o caráter político do texto o pôs ainda mais em evidência. Com tal sobrecarga de atenção, o artigo iniciou um debate — sobre os suas limitações no trato do tema – a questão de gênero –, os preconceitos que reafirmaria mesmo sem intenção, etc. Era um texto ofensivo? Quem decide? Era um texto a serviço da dúvida, que expunha tensões dos corredores? Quem decide? Publica-se anonimamente um texto “político”? O que é um texto político? Quem decide? Seria publicada uma resposta na mesma edição? Isso configura um privilégio de quem “está dentro”? Quem decide? Para cada uma dessas questões, impôs-se o dissenso. Com a emergência da greve de 2013, o debate foi suspenso em favor de uma edição voltada às questões da paralisação. Enfim, seu autor teve notícia da discussão, e optou por sair do anonimato e a participar da conversa. Acabou por decidir não publicar o texto, que seria endereçado a outro jornal, o qual deve ser distribuído nos corredores em breve.

Quer dizer: não se decidiu nada. Pontualmente, a questão foi “resolvida” pelo autor.  Resta, no entanto, aberto todo o debate, que diz respeito não somente ao “interior” do jornal (que rigorosamente nem deveria existir), ou seja, aos diretamente envolvidos com a editoração – mas a todos. É a todos nós que o debate diz respeito. Que tipo de jornal os estudantes de filosofia queremos? Repita-se ainda uma vez: o Discurso deve aceitar textos anônimos? Os participantes do grupo de e-mails, que possuem acesso prévio, podem responder a um artigo na mesma edição? O que pode impedir a publicação de um texto neste jornal? A comissão havia discutido sobre não publicar textos ofensivos. Mas qual o critério?

Vocês podem enviar comentários sobre as perguntas para o e-mail do CAF (uspcaf@gmail.com) ou pelo grupo de e-mails do jornal (entre pelo link http://bit.ly/jornaldafilosofia). É claro, você também pode levantar outras questões sobre a identidade do jornal e seu processo de produção. Para breve, será chamada uma reunião/assembleia para que possamos, juntos, responder a essas questões e decidir os rumos do jornal. Afinal, quem decide? Todos nós.

Mas e os textos publicados, gente?

Nesta primeira edição do ano a coluna do CAF apresenta alguns dados para entendermos a crise orçamentária em que se encontra a USP após quatro anos de gestão Rodas. Em seguida publicamos a comunicação apresentada por aluno do curso na semana da calourada sobre acesso e permanência. Depois da repercussão dos rolezinhos no começo do ano, a proibição do funk voltou a ser tema de discussão, porém qual seria o papel oculto do estado em relação a essa proibição. Dando continuidade a um debate que vem crescendo no curso desde o fim do ano passado, dois textos acerca da posição das mulheres no contexto político e universitário estão nesta edição.

O transporte nosso de cada dia nos dá hoje duas crônicas. Recebemos dois textos que dialogam com o contexto político nacional. O  primeiro indaga se, diante dos inúmeros protestos contra a copa, não seria o caso de compreender que a própria organização da copa atingiu/interferiu diretamente na luta e nas conquistas de movimentos sociais? O segundo questiona se algumas das jurisprudências dos últimos meses não inviabilizariam as mobilizações coletivas, contribuindo assim para o policiamento ideológico e a totalização do estado de exceção. Terminamos esta edição com uma resenha sobre o filme “A caça”, um texto com bibliografia em língua aeroacadêmica e três contos enviados por colegas do curso. Apresentamos ainda o heroico Sofista Prateado, traduzido diretamente do original na página 30. E finalizamos com a já conhecida seção de poesias. Boa leitura.

 

Março/abril/maio de 2014

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