Bricolagem I – X eminente professorx de filosofia descobre-se mortal como Sócrates

Por André Braga

 

ilustração bricolagem i

 

X eminente professorx de filosofia encontrava-se sentado numa larga poltrona, num quarto de dormir; e era um crepúsculo magnífico, que deixava entrar pela janela o ar putrefato do rio. Elx olhava mudo para o céu, que se tornava cada vez mais azul, as sombras violeta do vale, as cristas ainda imersas no sol. A faculdade estava distante, não se avistava mais sequer o seu relógio.

Devia ser um crepúsculo de felicidade, mesmo para os homens de uma sorte mediana. X eminente professorx de filosofia pensou na cidade de tarde, os doces anseios da nova estação, jovens casais nas marginais ao longo do rio… Todos, de um modo ou de outro, tinham algum motivo, ainda que mínimo, para esperar, em tráfego, todos menos ele.

Embaixo, na sala, um homem depois dois juntos puseram-se a cantar uma espécie de canção popular de amor. No alto do céu, lá onde o azul era profundo, embora não se pudesse ver naquela cidade, brilhavam três ou quatro estrelas. X eminente professorx de filosofia estava sozinho no quarto, nos cantos e embaixo do móveis acumulavam-se sombras suspeitas. X eminente professorx de filosofia por um instante pareceu não resistir (ninguém afinal x via, ninguém saberia que estava vivo), mas X Eminente Professorx de Filosofia por um instante sentiu que o duro fardo de seu íntimo estava para romper em pranto.

Foi aí então que dos fundos recessos surgiu, límpido e tremulante, um novo pensamento: a morte.

X eminente professorx de filosofia via que estava morrendo, e o desespero não x largava mais. Sabia, no fundo da alma, que estava morrendo, mas não só não se acostumara a isto, como simplesmente não o compreendia, não podia de modo algum compreendê-lo.

O exemplo do silogismo que elx aprendera na Lógica de Aristóteles: Sócrates é um homem, os homens são mortais, logo Sócrates é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Sócrates, mas de modo algum em relação a elx. Tratava-se de Sócrates-homem, um homem em geral, e neste caso era absolutamente justo; mas elx não era Sócrates, não era um homem em geral, sempre fora um ser completa e absolutamente distinto dos demais. E Sócrates é realmente mortal, e está certo que ele morra, mas quanto a mim, Eminente Professorx de Filosofia, com todos os meus artigos e publicações, aí o caso é bem outro. E não pode ser que eu tenha de morrer. Seria demasiadamente terrível.

Era assim que elx sentia.

“Se eu tivesse que morrer, que nem Sócrates, bem que eu o saberia, a minha voz interior haveria de dizê-lo, mas nada disso ocorreu em mim; tanto eu como todos xs mxxxs amigxs compreendemos que isso é bem diferente do que sucedeu a Sócrates. E eis o que acontece agora! – dizia em seu íntimo –, não pode ser. Não pode ser, mas é.”

Mas x eminente professorx de filosofia, a partir do momento em que a filosofia passou a lhe dizer respeito, não queria mais saber de filosofia. Suas preocupações não x deixavam dormir e estava com vontade de pensar em literatura, pois elx tinha tão poucas oportunidades, em geral pensava apenas em filosofia, só conhecia pessoas que se interessavam exclusivamente por filosofia. E àquela altura x eminente professorx de filosofia lembrou-se de uma frase que seu tio, literato fracassado, sempre lhe dizia, e proferiu-a em voz alta. Disse: a filosofia parece só tratar da verdade, mas talvez só diga fantasias, e a literatura parece só tratar de fantasias, mas talvez diga a verdade. E x eminente professorx de filosofia sorriu e pensou que parecia uma bela definição para as duas disciplinas. E, pensando nisso, dormiu.

Quando x eminente professorx de filosofia despertou, na manhã seguinte, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie asquerosa de animal improdutivo, uma mula humana, incapaz de reproduzir espécie viva em forma de artigos acadêmicos. Logo agora que o departamento atingiu o nível sete na CAPES, pensou.

É que, dos extremos confins, elx sentia avançar para cima de si uma sombra progressiva e concêntrica: seria talvez questão de horas, talvez de semanas ou de meses; mas até os meses e as semanas são pouca coisa quando nos separam da morte. A vida então virara uma espécie de brincadeira, totalmente avessa aos seus ideias de produtividade.

“Coragem, eminente professorx de filosofia, esta é a última publicação, vá ao encontro da morte como um professor de filosofia, e que o seu perfil no Lattes pelo menos termine de forma digna. Vingado finalmente da sorte, ninguém cantará seus louvores, ninguém o chamará de herói ou de qualquer coisa semelhante, mas justamente por isso vale a pena. Ultrapasse com pés firmes o limite da sombra, aprumado como para uma conferência, e sorria, se conseguir”.

Isso x eminente professorx de filosofia dizia a si mesmo, sentindo apertar à sua volta o círculo conclusivo da vida. E do amargo poço das publicações apenas rascunhadas, dos cargos não alcançados, das desfeitas sofridas, subia uma força que ele nunca teria ousado esperar. Com inexprimível alegria, x eminente professorx de filosofia percebeu, de repente, estar absolutamente tranquilx, ansiosx quase por recomeçar a provação.

Coragem, eminente professorx de filosofia! E elx experimentou fazer força, manter-se firme, brincar com o pensamento terrível. Pôs nisso todo o seu ânimo, num ímpeto desesperado, como se, sozinhx, professasse uma conferência no Collège de France. E, subitamente, os antigos terrores caíram por terra, os pesadelos afrouxaram-se, a morte perdeu seu vulto enregelante, transformando-se em coisa simples e de acordo com a natureza. X eminente professorx de filosofia, consumido pela doença e pelos anos, pobre funcionárix públicx, forçou o imenso portal…..

Março/abril/maio de 2014

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