Conseqüência do dia (Partes A1-A3)

Por Y. K.

 

ilustração a consequência do dia

 

C.D. A1.

O terreno desconhecido ao qual tantos já investigaram, ganha nome forma e ciência. Seu desconhecimento transforma-se a cada passo do andarilho, porém, seu conhecimento afirma-se enquanto este continuar de pé.

A sombra das nuvens que se associam em ideias condensadas opera a solução para o calor. O braço vergado ao horizonte, o passo lento e a estrada lateral. Investiga a via pública anonimamente, percorre a sua obra comentando com suas pegadas.

Não existem lembranças em seu rosto. A hesitação herdada de sujeito, agora não passa de objeto, sobrando apenas seus sentidos inatos por de traz da pintura de gente. Sussurra algo acerca de sede, inspeciona os bolsos e reclama que não conhece o mundo. Ate onde a realidade alcança? Além dos exemplos cognoscíveis existe a razão dos animais, a busca por milagres, o divino e particular futuro. Onde perderam os princípios das paixões?

Em oposição à inércia de exclusão de questões, vira às costas a procura de algum veículo amigo. Alguns ao longe se encaminham… Mas o transpassam como se esquecessem de que é um homem. Está desprendido do rigor e da exatidão.

Volta a caminhar com eloquência, vencido pelo discurso adulterado de sua aparência. Existem muitas superstições populares que ultrapassam sua capacidade de verdade, assuntos remotos e obscuros que fazem fronteira em mentes que operam a desordem. Esta fora de alcance entender a abrangência de tal causa, por isso, experimenta e institui seus próprios limites, como manter o braço em prontidão enquanto segue o vento, afinal, existe a possibilidade dos conceitos primitivos, aqueles dos quais partem as justificativas das crenças. O terreno desconhecido.

 

C.D. A2.

A cabine ampla do veiculo oferecia uma perspectiva incomum. Da memória opaca o andarilho tentava resgatar alguma lembrança, um gosto de virtude. Compôs as antigas impressões junto às novas; concluiu que as cores e costuras não mais importam.

O homem que pilotava não falava há algum tempo, silêncio que convida a imaginação a se perguntar se incomoda.

– Posso fumar? Perguntou.

Um “à vontade” vívido lhe permitiu. Do bolso sacou dois cigarros e ofereceu um ao motorista. Este negou.

Encarou a chama da ponta do cigarro, tragou e ouviu a pergunta. “pra onde vai?”

Pergunta rotineira, resposta rotineira. Contradição.

Ideias que fundidas concebem o não visto, o olhar para os sentidos internos, externos. Critério da experiência. Comparou os lugares, os materiais e a falsa intensidade. A verdade é que não havia desejo em particular, obscuro talvez. As costumeiras justificativas tradicionais.

– O que podemos conhecer? Escapou-lhe o impulso das letras. – Podemos acreditar no que conhecemos? Continuou a língua distraída. E antes que acabasse aquecendo demais os músculos, o caminhoneiro teoriza. “Não sei senhor! Suspendo-me pelo mundo sem fim. Não lembro quando comecei. Melhorei, aprendi e corrigi meus erros, mas ainda não acredito.”

Abaixou o vidro, soprou a fumaça pra fora. Como se comprova e sustenta a complexidade? Garantias que exigem fé, onde as conclusões sustentam a si mesmas. Posterioridade que cobra conceitos em troca de crenças, negando a desistência como um critério das possibilidades, estendendo-se o suficiente para construir uma teoria do imediato.

C.D. A3.

O cascalho rangia de um modo peculiar. No pasto ralo e corrompido por detritos, toda a vegetação derivava de ervas daninhas e pragas verdejantes, mato que impossibilitava a oportunidade do solo cultivar sua natureza inata, seja ela qual fosse. Já o herbívoro sonolento que ali pastava pouco se importava com tal distinção, remetia os olhos ao infinito, marcava como única cada mordida ruminante e, usando de nenhuma imaginação compartilhava a sombra com o andarilho.

Internamente o cansaço que o fizera sentar ainda mantinha sua cadeia de comando. A percepção sincronizava com as consequências de tantos dias sem comer, o que lhe fazia se aproximar de ter certas ideias. Proviam em deriva algumas cogitações, nenhuma agradável, em geral todas culminavam na palavra “querer”. Planejamentos complexos e confusos se diluíam ou flutuavam para longe. “eu quero”. Correspondia muito bem ao instinto que apertava a empunhadura da faca. A tríade apreendida na experiência lhe dizia que eram precisos três termos para se sustentar no vazio. Uma boa bota para calçar, água para matar a sede e uma faca para proteger a vida. Cada um significava uma conexão de ruptura.

Absteve-se do alimento por afirmar sua negação de possuir uma necessidade, justificou ser crível que era melhor seguir sem roubar do que deixar de seguir. O óbvio se propôs sem qualquer duvida razoável. Aceitar um resultado nulo em uma situação de contra balanço é um caminho não apenas provável, mas certo que com o tempo a sustentação de tal posição se mostrará além de qualquer conhecimento ou vontade, inferior em frente ao principio de subsistência. Refletiu. Sua anterior irreflexiva cobrou o preço. Levantou. Andou de maneira assimétrica ate o animal domesticado ou apenas composto de um nível embasado de dependência.

Algo é certo para dizer que em principio houve objetividade, delineou-se uma transitiva intransitiva de alto enunciação em certas condições que se sabe que sabe. O ultimo envolve todos os anteriores, nos negativos, o ultimo envolve todos os anteriores. Os 13 passos.

C.D. A4.

Pensamentos que surgem e se sucedem uns aos outros, todos quebram sua rotina e nenhum faz parte de qualquer sequência. O andarilho estava deposto abaixo de uma camada de papelão, coeso em sua linha de frio e umidade, reconhecido pela febre e pelos calafrios regulares. Gotas indeterminadas atingiam-lhe o corpo, respondia a elas com uma linguagem de ideias complexas sussurradas, nas quais, o seguinte diálogo se segue:

– Contiguidade, tem efeito de tempo… Meu espaço, meu espaço… O que disse?

– Não filho, essa abrangência tá errada, imagine uma conexão de ideias.

– Exato, tem que ter regularidade, o mais geral possível…

Parou um momento para se relacionar com o roedor curioso que observava a conversa.

Semelhantes o seguiram, uma ninhada. Intuiu que se sustentavam da ciência dos restos.

– Restos. Restos. A claridade lentamente retomou os seus olhos, levantou-se o possível, mas não o suficiente e voltou a deitar-se sobre o chão encharcado. Permitiu que a chuva fina especula-se sobre teu rosto pontuando lhe o semblante, respirou fundo e resolveu explorar o ímpeto de se erguer mesmo sobre o equivoco das forças. Houve correspondência a tal concessão, e de modo mais simples do que pensará; após a conquista estruturou a postura em defesa de algo próximo a uma aproximação de passos, associou-os em dependência mutua uns dos outros e prosseguiu. O beco no qual se encontrava se relacionava muito bem com o entulho, com evidências de vidro, demonstrações de madeira, papel, metal, barro e lodo. O caos da vida urbana inconcebível. Procurou aos bolsos por cigarros subjetivos, operação que independeu completamente da realidade e resultou em uma lembrança. Tinha a impressão que sangrava; levou a mão à parte de traz da cabeça e comprovou que o fato dispensa qualquer duvida, o inchaço companheiro do corte despertou seu torpor.

O tempo havia fechado naquela maldita periferia de um santificado dia contraditório. O andarilho investigou a natureza fundacionista do bando que se aproximava em sua direção, contatou o mau cheiro e prosseguiu seu caminho. Sensações se apresentaram por si próprias junto ao sujeito de mãe pecaminosa que lhe desferiu o primeiro chute. Segue-se que a dor da surpresa possui uma propriedade de reflexo que engloba certo grau de crença, acreditou que o objeto mesmo que lhe atingirá intencionalmente deveria julgar e temer, e sem erro de percepção o erigiu de suas partes sensíveis. A única certeza que se seguiria a isso… O peso consequente sobre a aparência era o mesmo, tanto para derrota quanto para vitória, significava adaptação junto à “quebra”. A busca da segurança, auto preservação, satisfaz a sentença ao ser comparada e semelhante aos diferentes usos das justificativas pelos fins.

 

Março/abril/maio de 2014

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