Domínio de fato

Por Lucas Paolo

 

ilustração domínio de fato 2

No momento em que a política volta radicalmente a fabular o direito, o policiamento ideológico opera separando os mitos da plasticidade de sua força coletiva. A política institucional bloqueia as forças de reatualização da origem e isso é exatamente o que permite que o mito opere como encarnado apenas em sujeitos políticos, insensibilizando, à revelia desses, a base das potências coletivas. O mito é sempre uma instância problemática entre sujeito e coletividade, e o problema diretivo do mito é que se não intervimos nele, ele intervém em nós. O que o policiamento ideológico tem operado com maestria nos últimos meses (ou talvez desde junho) é a retirada da aura de nossos mitos. Assim, uma origem incerta que precisa sempre ser reatualizada é sedimentada e esvaziada e o mito passa a ser um operador fixo de identificação dos sujeitos. Georges Sorel nos ajudaria muito a entender como os Black Bloc – que com suas táticas propunham uma nova plasticidade entre mito e violência – foram (com consentimento de muitos) desauratizados. A mídia, a polícia e o Estado elegem tal significante como mito esvaziado encarnado em sujeitos apartados da problematicidade própria a plasticidade da violência. Isso permite identificar culpados sem precisar encarar a origem da culpa. A criminalização dos movimentos sociais não é um aspecto do reordenamento jurídico, é a estratégia própria para que se possa separar direito e coletividade, legitimando no seio da democracia a operatividade própria a um estado de exceção.

Não se pode fabricar um mito, mas se pode impedir que o mito seja uma mescla de potências coletivas e encarnação individual. A grande estratégia atual – e que tem dado certo de maneira vertiginosa – é separar no mito a encarnação individual e as potências coletivas. A política volta a fabular radicalmente o direito porque abre primeiro na ideologia a força – nunca antes vista – de separar o indivíduo das potências coletivas, e depois, legitimado por esse primeiro movimento, produz uma jurisprudência que opera separando a plasticidade do coletivo e a consciência individual.

Um projeto que totaliza o estado de exceção está em curso: 1. o indivíduo não mais se reconhece nas potências coletivas, pois os mitos não são mais um espaço problemático do comum, mas no comum aquilo que permite o policiamento ideológico. O mito esvaziado da coletividade virou a principal ferramenta de criminalização do autenticamente político. 2. O sujeito coincide com a racionalidade totalitária que não afasta o mito, mas o esvazia de suas potencialidades coletivas. Essa racionalidade não cai no seu contrário, ela exclui seu contrário, não diretamente mas através do mito que ela mesma prometia expurgar. O nazismo não completou seu projeto no século XX, pois enclaustrado na necessidade da identidade nacional precisava ainda articular mito e coletividade. Com o progressivo abandono das fronteiras nacionais em um capitalismo imperial, o nazismo pode se totalizar: exclui do mito (aquilo que permite uma comunicação do comum) a própria coletividade. O carnaval está completo: cada um pode sair com sua fantasia, e o Estado pode expurgar a fantasia do Outro.

Março/abril/maio de de 2014

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