Estação Sé do metrô

Por Alex Pantoja

ilustração estação da sé

 

Entre as portas emperradas e os botões secretos das estações, os vândalos de Alckmin compartilham pequenas histórias nos túneis do metrô que permeiam a cidade.

Uma delas vem dessas máquinas que vendem livros nas plataformas dos trens. Alguém já as notou?

É curioso. Um dia passei diante de uma dessas máquinas achando que era uma daquelas que expele chocolates e outras best…eiras do gênero.

Mas, estupefato, percebi que lá onde deveria estar uma fileira de pacotes Ruffles, estava, na verdade, uma mini coluna do Exército Vermelho: um pequeno destacamento de uns quinze livros vermelhos, enfileirados e milimetricamente dispostos, ostentando na capa: “A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado”, de Friedrich Engels.

No dia seguinte, claro, já esperava por um Bakunin. Ele não iria deixar essa vanguarda vermelha ficar pela Sé pagando sozinha de revolucionária.

Mas, na verdade, achava que apareceria mesmo mesmo é uma coluna da C.N.T espanhola, que não deixaria barato aquele destacamento do Exército Vermelho. Tinha certeza que, no mínimo, haveria uns vinte livretinhos do Bakunin ali, lado a lado, para fazer uma boa dialética.

Mas eis que passo novamente pela mesma máquina da estação Sé e, porra! O que aconteceu? Estava cheio de “Agapinho” do Marcelo Rossi, um monte deles. Quase uma procissão de beatas.

Logo imaginei uma explicação para tudo isso: deve rolar uma guerrinha ideológica entre os funcionários responsáveis pelo abastecimento de livros nas máquinas.

Em um dia, um certo sujeito vai lá e pega pesado: enche a máquina de Rousseau, Voltaire, Engels e Nietzsche. Até Schopenhauer já vi. Aposto até que abastece a máquina enquanto assobia “La Marseillaise” ou a “A Internacional”.

Mas no dia seguinte, aquele outro carinha da mesma empresa dá o troco: no lugar do Rousseau coloca Marcelo Rossi. Tira o Voltaire e lança um cartão pré-pago de celular. Tem a manha de empurrar o Nietzsche lá pro fundo só para – doce ironia – colocar aquele livreto que ensina como ser feliz com 10 reais e dez filhos.

E não menos tenso é o fato de que os vândalos do metrô, digo, os usuários, ficam expostos a um destino sortido. Quem terá passado pela máquina naquele dia?

Uma vez um carinha na minha frente, dois conto na mão, nota novinha em folha, titubeou entre o “Como prevenir doenças e viver feliz” e o “Kama Sutra simplificado”.

Apostei com o outro vândalo que me acompanhava, Marcelo Guimarães Martins, que não daria outra. Aqueles dois conto na mão, segurados daquele jeito e com o carinha já meio decrépito, seria tiro certeiro: “Como prevenir doenças e viver feliz”.

Meus vinte centavos – e eram só os vinte centavos mesmo – já estavam empenhados.

Mas não é que o neguinho escolheu o “Contrato Social”? E depois que a máquina expeliu o livretinho, ainda saiu todo serelepe folheando as páginas de papel jornal e querendo sacar qual foi o contrato que ele nunca assinou mas que continua pagando a multa contratual até hoje.

Estou pensando em entrar em contato com o SAC para que seja obrigatória a exposição da escala de funcionários do dia. Assim não haverá surpresa sobre o que teremos pela frente.

Vai que um dia desses essa porra de metrô para de funcionar do nada ou o sistema de ventilação é desligado. Ou então, sei lá, a porta trava ou algum maluco aperta o botão secreto da estação e tudo para ? Tipo só pra sabotar mesmo, sabe ?

Já pensou se isso acontece ? O que vou ter para ler nesse dia ?

 

Março/abril/maio de 2014

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