Mulheres na filosofia? Faça as contas

Por Sally Haslanger

Tradução por Mariana Luppi e Maria Lívia Goes

(texto original)

ilustração tradução mulheres na filosofia

 

Desde a renúncia de Colin MGinn de seu cargo na Universidade de Miami, que seguiu-se de denúncias de assédio sexual contra uma estudante, o debate sobre os obstáculos para as mulheres na filosofia renovou-se. O  NY times publicou uma série de artigos de filósofas sobre o assunto em 2013, e agora um grupo de mulheres do curso está buscando traduzi-los para o Discurso sem Método.

 

Muitos de nós já tivemos a experiência de sentar em um avião e ser perguntado pela pessoa na cadeira ao lado: “O que você faz?”

É um momento de incerteza: o que dizer? Há riscos em responder “Eu estudo filosofia”, porque seu vizinho pode começar a expor longamente a própria filosofia ou recordar quão desagradáveis foram sua as experiências quando cursou introdução à filosofia. (“nós lemos uns artigos malucos sobre sobre ser sequestrado e algemado a um famoso violinista para mantê-lo vivo”). Uma vez um amigo meu recebeu a resposta entusiasmada, “Oh, você é filósofo? Diga-me alguns de seus pensamentos. No entanto, quando eu tentei a resposta de “eu sou filósofa”, isso causou risos. Quando eu perguntei o porquê da risada, a resposta foi, “Eu penso em filósofos como homens velhos com barbas, e você definitivamente não é assim. Você é muito jovem e atraente para ser uma filósofa”. Tenho certeza que elepretendeu que isso fosse um elogio. Mas eu parei de responder “Sou filósofa”.

Apesar de a maioria dos filósofos atualmente não ser de homens com barbas, a maioria dos filósófos profissionais é de homens; de fato, homens brancos. Foi surpreendente para todos que a quantidade de mulheres se doutorando em filosofia é menor do que a maioria das ciências físicas. Ainda em 2010 a filosofia tinha menos mulheres doutoras do que em matemática,  química e economia. Note-se, porém, que desses campos a filosofia foi o que mais mostrou progresso nos últimos cinco anos.

A quantidade de mulheres filósofas com cargos nas  faculdades é bem mais difícil de determinar. Embora por décadas o Comitê sobre a situação das mulheres da Associação Americana de Filósofos (APA) tenha pressionado a associação para colher dados demográficos, ela falhou em obtê-los. Nós dependemos principalmente de esforços individuais para fazer as contas. Os melhores dados que temos sugerem que em 2011 o número de professores titulares/efetivos  de  51 programas de graduação raqueados pelo Leiter Report -o ranking mais amplamente usado para departamentos de filosofia anglófonos – incluíam apenas 21.9% de mulheres.

Isso é potencialmente enganador, no entanto, uma vez que o Digest of Education Statistics  relata que em 2003 (dados mais recentes compilados pela filosofia) a porcentagem de mulheres em (posição) cargo de professora pós-secundário em tempo integral   foi de meros 16.6% de um total de aproximadamente 13.000 filósofos, em uma ano em que 27.1% dos doutorados foram femininos. Logo saberemos mais, pois a APA (thankfully) felizmente começou a coletar dados demográficos.

O número de filósofos negros, especialmente mulheres negras é ainda mais espantoso. Os números de 2003, que contaram 16.6% de instrutoras de filosofia em tempo integral, não incluem nenhuma mulher negra. Aparentemente havia dados insuficientes  para qualquer grupo racial além das mulheres brancas aparecer. O comitê da APA sobre a situação dos filósofos negros reporta que atualmente nos EUA existem 156 negros na filosofia, incluindo doutorandos e PhD’s em filosofia em posições acadêmicas; isso inclui o total de 55 mulheres, 31 das quais tinham cargo efetivo ou titular. Assumindo que ainda há 13 mil instrutores de filosofia em tempo integral nos EUA, a representação de acadêmicos negros é possivelmente pior do que em qualquer outro campo da academia, incluindo não só física, mas engenharia também. Indesculpável.

Com esses números, você não precisa de assédio sexual ou racial para dificultar as mulheres e as) minorias de ter sucesso, porque a alienação, a solidão, preconceitos implícitos, tratamento esteriotipado, microagressão e discriminação direta farão o trabalho. Mas em um universo de números tão pequenos, assédio e agressão são mais fáceis.

“Maus  atores” são um problema, mas um problema mais profundo é o contexto que dá poder aos “maus atores”. Mudanças precisam acontecer em múltiplos fronts para progredirmos. Falta para a filosofia a infraestrutura que outras disciplinas têm para realizar mudanças sistemáticas Nós não temos o financiamento ou a influência de algo como a Fundação Nacional de Ciências.

Nós temos uma pequena comunidade de ativistas feministas e antirracistas, e algumas importantes mudanças na goverança da APA – como o apontamento de uma nova diretora executiva, Amy Ferrer, que não só tem forte experiência com administração não-lucrativa, como também é da área de estudos femininos. O caso McGinn é um ponto crítico, não só porque afastou alguém com grande poder e influência, mas porque seu caso e a resposta a ele demonstram que o persistente ativismo dos últimos 20 anos está se tornando institucionalizado.  Nós estamos ganhando espaço agora. Nós não vamos ceder, é só uma questão de tempo.
Março/abril/maio de 2014

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