Por que é preciso lembrar? memória, identidade e reconhecimento

Por Monica Marques

De acordo com o censo de 2000 as mulheres ultrapassaram os homens em termos numéricos no que se refere à obtenção do diploma universitário (52,8%). No entanto, por trás dessa pretensa igualdade numérica há ainda um hiato. Analisando os dados verificamos divisão por gênero entre as carreiras. As mulheres se concentram em áreas consideradas menos prestigiadas (pior remuneradas) e ditas femininas: magistério e cuidado com a saúde (psicologia, fisioterapia, enfermagem etc).

Outro dado relevante é a representação política. Ainda que tenhamos uma presidenta (que é frequentemente insultada de vadia e alvo de diversas especulações sobre sua  orientação sexual) e mais da metade dos formandos em nível universitário sejam mulheres, a participação feminina nos órgãos deliberativos dos governos é ínfima: no Senado contamos com 13%, no Congresso apenas 8,77% – há maior participação política da mulher no Afeganistão e no Iraque, países considerados machistas e com alta instabilidade política, que no Brasil. No ritmo de crescimento atual, a perspectiva para o alcance da paridade política entre homens e mulheres no Brasil é de aproximadamente 150 anos.

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A ausência das mulheres na política, nos cargos de chefia e na pesquisa acadêmica em algumas áreas remete a uma ideia naturalista com suposta base biológica/psicológica, hoje já parcialmente ultrapassada pela academia, mas ainda muito presente na cultura, de que as mulheres tendem à emoção e à sensibilidade ao passo que os homens tendem à racionalidade e à política (deliberação) de tal forma que as profissões/atividades sejam determinadas a partir desses dons inatos. São tantos os filósofos que estudamos que compartilham tal ideia que é inútil enumerar.

Nosso curso ainda expressa essa oposição. Inscreveram-se para o vestibular 579 homens e 204 mulheres. Proporção que se mantém entre os matriculados. Por mais que isso não reflita o cenário nacional como um todo, é o que se verifica nas principais universidades do país (USP, UERJ, UEM, etc). As reflexões que se seguem procuram compreender as discrepâncias apresentadas até aqui.

***

A identidade seja ela individual ou coletiva é formada a partir da memória. Esta por sua vez é composta por personagens, acontecimentos e lugares que se dão na história. A identidade de cada um, i. e., a imagem de si, para si e para os outros¹, assim como a de um povo, se constrói, portanto, por meio da identificação com personagens, acontecimentos e locais significativos presentes na memória, determinando comportamentos e atitudes dos indivíduos.

A memória, contudo, não é fato, mas uma interpretação dos fatos. A memória coletiva é o palco em que se disputa o que deverá ser lembrado e a maneira que será lembrado, atribuindo um valor positivo ou negativo a essa memória. A atribuição do valor, que normalmente atende aos interesses de classes dominantes, irá produzir a visão que se tem de determinados grupos, elevando alguns, estigmatizando outros ou simplesmente esquecendo-os.

No caso nacional, pode-se dizer que o Brasil sofre de um duplo esquecimento. Se no âmbito mundial já são pouco conhecidas personagens da luta feminista ou da resistência negra, menos são as do território nacional. Lembramos mais de personagens estrangeiros que de nossos próprios. Isso certamente dificulta a construção de uma política nacional séria (se isso ainda for possível em algum lugar), pois cria um afastamento entre a política e os brasileiros, e ainda mais as brasileiras. Mas essa é uma outra discussão que precisa ainda ser feita.

Podemos nos lembrar dos negros negativamente como um povo que se rendeu e contribui a sua própria escravização (isso de acordo com algumas interpretações) e que por isso merece o seu destino, ou positivamente como um povo resistente que se organizou em quilombos, foi protagonista de diversos levantes e movimentos sociais (o movimento negro unificado, p. ex., não consta em nenhum material didático, tampouco é lembrado pelos meios de comunicação). Sabemos mais sobre Nelson Mandela e Martin Luther King, do que sobre Lélia González e Abdias do Nascimento.

Podemos nos lembrar do povo indígena como um povo preguiçoso (o que foi retirado recentemente dos livros didáticos) ou como um povo que simplesmente se recusa a escravização.

A imagem feminina é algo de ambíguo. Habitam simultaneamente várias imagens, que se sobrepõem umas sobre as outras, sendo algumas negativas e positivas ao mesmo tempo. Desde uma imagem estigmatizada da mulher como objeto sexual a ser exposto e manipulado, passando pela valorosa imagem da “boa mulher”, grande cozinheira, grande mãe, trabalhadeira, que é ao mesmo tempo desvalorizada “como mulher que só serve pra isso”, até a mulher poderosa e sedutora (ora, valorizada pelo seu “dom”, ora classificada como “impura”). Mas, curiosamente, nenhuma imagem se refere à mulher enquanto agente político ou como pensadora. Mas será que não existiram? Serão inaptas?

Assim como apagaram a resistência racial, apagaram-se da história a maioria das mulheres que, contrariando as privações a que eram submetidas (privações essas que se desenvolvem em cadeia nos âmbitos econômico, político e social), produziram conhecimento ou agiram politicamente em eventos históricos.

Mesmo agora em que a mulher tem a possibilidade se formar na universidade (o que vem avançando muito no Brasil desde a década de 70), a quase ausência de figuras políticas femininas positivas na memória coletiva alimenta a tradição que priva a mulher da participação política, de uma série de atividades e determinam comportamentos e atitudes, sem que para isso seja necessária uma proibição expressa. Por isso se faz necessário resgatar o passado e criar uma nova imagem que permita o reconhecimento da mulher como igual. Nesse sentido, montamos a exposição sobre as mulheres na filosofia a fim de desmistificar o pensamento filosófico como atividade essencialmente masculina.

Não se trata, contudo, de mostrar que a mulher tem o seu valor de acordo com a regra opressora, colocando uma imagem de feminina em disputa com uma masculina a fim de sobrepujá-la ou ainda masculinizar a imagem feminina, dando a mulher os mesmos poderes de dominação que atualmente pertencem ao homem (preferencialmente hétero e branco). Trata-se antes de transfigurar os valores a fim de abrir novas possibilidades de realização a ambos os sexos, assim como de outros grupos excluídos, desconstruindo e construindo imagens. Se a indeterminação é de todo impossível, uma vez que não se pode ignorar o tempo histórico, podemos, ao menos, tornar as determinações mais maleáveis.

 

¹ Segundo Pollak, a identidade é constituída pela “imagem que uma pessoa adquire ao longo da vida referente a ela própria, a imagem que ela constrói e apresenta aos outros e a si própria, para acreditar na sua própria representação, mas também para ser percebida da maneira como quer ser percebida pelos outros.” p. 5

 

Referências

Mais Mulheres na política. Projeto mais direitos mais poder. Realização: Ibope / Instituto Patrícia Galvão.

Pollak, Michael. Memória e Identidade Social (conferência) in: Estudos Históricos, Rio de Janeiro, vol. 5, n. 10, 1992, p. 200-212.

Westin, Ricardo. Mulheres ainda buscam espaço na política, Jornal do Senado, Edição de 05 de março de 2013, Cidadania.

 

 

Março/abril/maio de 2014

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