Por que protestar contra a Copa do Mundo de 2014?

Por Dimitrius Sacute Valentim

ilustração por que protestar contra a copa 2

 

Todos sabemos que vai ter Copa. Ela está marcada para começar no dia 12 de junho de 2014, quase um ano depois do dia em que a repressão da Polícia Militar de São Paulo a um ato chamado pelo Movimento Passe Livre pela revogação do aumento das tarifas desencadeou a maior mobilização de rua do Brasil depois da transição da ditadura empresarial-militar para nossa democracia. Era o dia 13 de junho de 2013.

Lembremos que no dia 17, no 5º. Grande Ato contra o aumento, a torcida brasileira saiu às ruas. Alguns, como eu, já não entendiam mais nada: parecia que não era mais por 20 centavos. Por aqueles dias, uns diziam que um professor vale mais que o Neymar, outros queriam que o Hulk fosse cortado, outros pediam a volta dos militares e ainda outros pediam a volta de Felipe Melo à seleção. Também estava nas ruas a torcida pelos direitos sociais padrão FIFA, uma imensa torcida desorganizada pelo Brasil: parecia que o “país de todos” da propaganda oficial do milagroso “desenvolvimento econômico com distribuição” dos governos Lula e Dilma não era o “país que vai pra frente”, para recordar a canção dos militares na Copa de 1970. Estava nas ruas, cantando, a própria torcida que é “brasileira com muito orgulho e muito amor”, com suas bandeiras verde-amarelas e se protegendo da polícia com seus escudos da CBF. Estavam nas ruas bandeiras vermelhas, vermelhas e pretas, pretas, dos sem-terra, dos sem-teto e da juventude suspeitando-se sem-futuro; estavam nas ruas as bandeiras dos partidos, dos apartidários que não eram os antipartidários, que também estavam nas ruas; estavam lá mais bandeiras políticas do que haveria bandeirinhas de São João naquele junho. Todas as forças da conjuntura em campo… E, ao que parece, tudo teria terminado em 0 x 0 se o placar não tivesse sido, como foi na Cidade de São Paulo:

Time misto dos Manifestantes R$ 0,20 x R$ 3,00 Time misto da Prefeitura, Governo do Estado e Máfia dos Transportes

Assim, notamos, de lá pra cá, que a Copa, no geral, passou a ser encarada de três maneiras, relativas aos governos, aos empresários e aos manifestantes. Os governos têm investido como nunca em repressão, talvez se valendo da ocasião para garantir que outros junhos não virão, e é claro que o PT vê nos megaeventos o corolário de seu projeto de desenvolvimento nacional. Os patrocinadores da FIFA, as emissoras de TV, o quase evidente cartel Andrade Gutierrez-Odebrecht-OAS-Camargo Correia¹, as empresas vendedoras de armamentos não letais & Cia. Ltda. estão ganhando de goleada. Manifestantes, por sua vez, continuaram a sair às ruas com uma única mensagem: Se não tiver direitos, Não Vai Ter Copa. Fenômeno curioso, ainda mais se pensarmos que a própria pauta dos atos não é decidida previamente, mas por enquetes de facebook.

Os governos (em todos os níveis) já deixaram claro que, no que depender deles, pode-se ter “menos democracia” para a boa realização do evento, como desejou o Secretário Geral da FIFA, Jérôme Valcke. R$ 1,5 bi foram investidos, das Guardas Civis Metropolitanas à Força Nacional de Segurança e, agora, inclusive, os Choques têm seu novo look ao estilo Robocop. A Lei 12.663/2012, conhecida como Lei Geral da Copa, prevê a criação de zonas de exclusão de um raio de 2 Km em torno dos estádios em dias de jogo e a Justiça de São Paulo, com sua conhecida agilidade, providenciará a nova era do fast judgement ouCeprajud (Centro de Pronto Atendimento Judiciário), que encarcerará manifestantes em flagrante delito (de manifestar?) no mesmo ritmo da produção de fast food de um McDonald’s, que aliás estará autorizado a comercializar nas zonas de exclusão, ao contrário dos trabalhadores ambulantes. Já vimos que a PM de São Paulo vem se desenvolvendo com a aplicação de táticas como o “caldeirão de Hamburgo”, e aprimorando-se na contenção de protestos por meio da “tropa do braço”; além disso, sabemos que, no que depender do DEIC, ou melhor, do DEOPS, qualquer suposto subversivo será intimado a depôr nas horas dos atos marcados contra a Copa; além disso, no que depender do Ministério Público, Poder Judiciário, da PM, da Polícia Civil, do Governador Geraldo Alckmin & Cia., as únicas liberdades garantidas serão a de manifestação da brutalidade policial, a de organização e reunião dos agrupamentos de Choque, o direito de ir e vir a um Distrito Policial sem acusação formal, a liberdade de expressão em um fichamento ilegal das afiliações políticas, além da liberdade de credo, para que possam agir sem constrangimento os policiais que acreditem que haverá vandalismo. Passe ou não no Congresso a lei que reinventará o terrorismo dos subversivos no Brasil, no que depender dos governos, o terrorismo de Estado já se encontra modernizado.

Os empresários, além do que já lucraram com gastos públicos mais ou menos obscuros e isenções fiscais para a construção de estádios, terão um pequeno incentivo fiscal de cerca de R$ 10 bi, conforme a Lei Geral da Copa. Afinal de contas, quem foi que falou que a Copa do Mundo do Brasil será para todos os brasileiros? Até onde se pode ter bom senso, seria perfeitamente possível ao governo realizar investimentos em infraestrutura sem que houvesse Copa. Talvez até sobrasse mais dinheiro.

Temos assim dois óbvios “legados” do mundial que vão na contramão do prometido com a “Copa das Copas”: o aperfeiçoamento de uma estrutura de contenção de movimentos sociais, por um lado, e o avanço no processo de mitigação do Estado brasileiro, tendo havido, aliás, privatizações justificadas pelo torneio, além das isenções.

Neste sentido, está em jogo um terceiro legado, que é o da luta popular.

Temos dois modelos de luta. O primeiro consiste na mobilização até certo ponto espontânea das pessoas nos atos chamados pelo que veio a ser conhecido como Não Vai Ter Copa. Até o presente momento eu não saberia dizer quem começou a chamar tais atos de rua de janeiro pra cá, sendo que algumas organizações e partidos de esquerda, iniciado o processo, tentam articulá-lo num coletivo. Ao que parece, tais atos têm semelhança com alguns que ocorreram nas jornadas de junho: são chamados por redes sociais, produzindo-se uma unidade circunstancial em torno de uma dada palavra de ordem e um sentimento comum de urgência, nem sempre com pautas concretas, justamente porque tais mobilizações não decorrem de movimentos sociais organizados. Parece que esse modelo de luta, nas proporções que tem tomado, veio para ficar.

O outro modelo é o dos Comitês Populares da Copa, que se articulam nas 12 cidades-sede desde  2011 junto aos movimentos populares e entidades de base. Os Comitês se caracterizam por uma leitura estratégica do papel da luta política contra a Copa. Trata-se de usá-la para projetar as pautas dos movimentos já existentes que foram atingidos negativamente pela organização do evento. Deste modo, colocam-se contra os despejos, os processos de higienização e gentrificação, a proibição de trabalho aos ambulantes, a exploração de mulheres adultas, adolescentes ou crianças por ocasião do turismo sexual que tende a se formar nesse tipo de evento. Os Comitês também trazem a pauta concreta pela revogação da Lei Geral da Copa e seu caráter de exceção ao Estado de Direito e favorecimento escuso ao capital privado. Além disso, transformaram-se num importante espaço de articulação da luta pela desmilitarização da PM, que será a arbitragem entre a insatisfação popular e o governo. Ademais, os Comitês podem ser um importante espaço de articulação da luta por uma auditoria popular da Dívida Pública, tendo em vista dar transparência, dentre outras coisas, aos gastos com o mundial.

Para dar esse sentido à luta, os Comitês se propuseram a fazer o beabá: Trabalho de base e formação, articulando-se, contudo, de modo horizontal em reuniões abertas aos diversos ativistas, não ignorando as boas lições de junho de 2013.

Portanto, não faltam razões para lutar contra a Copa. Mas é preciso que se reconheça a diversidade dos modos de luta. Se tudo der certo e esses dois modelos confluírem, o mundo vai ver uma nova ola, não nos estádios, mas tomando as ruas no próximo junho.

***

Por fim, gostaria de recomendar o calendário central² de atividades do Comitê Popular da Copa de São Paulo, uma vez que compartilho a visão consensual de seus membros de que o outro modelo de organização (ato após ato) pode servir, em alguma medida, para treinar as forças de repressão, além de desgastar a pauta em torno da Copa com a opinião pública, inviabilizando um saldo positivo de lutas para depois dela.

31 de março – Ato da Comissão Estadual da Verdade “Rubens Paiva”

01 de abril – Ato do MTST “contra a ditadura”;

01 de abril – Cordão da Mentira – 50 anos do Golpe;

03 de abril – Reunião aberta do Comitê Popular da Copa SP;

08 de abril – Jornada de lutas por moradia;

13 de abril – 2ª Copa Rebelde dos Movimentos Sociais³;

17 de abril – Reunião aberta do Comitê Popular da Copa SP;

26 de abril – Marcha da Maconha: “Cultivar a liberdade para não colher a guerra”;

01 de maio – Encontro Nacional dxs Atingidxs por Megaeventos e Megaprojetos (BH);

15 de maio – Dia (Inter)Nacional de Luta contra a Copa, Megaeventos e Megaprojetos.

 

¹ Sobre isso, pode ser consultado o trabalho “Quem são os proprietários do Brasil?”, realizado pelo grupo Mais Democracia. A referência ao cartel mencionado pode ser consultada aqui.

² O CPC-SP participa todas as semanas de inúmeras atividades em articulação com os movimentos e entidades parceiros. Para contato, consultar seu manifesto, a formulação de suas pautas, saber dos movimentos e entidades de base que o compõem e
apoiam, acesse http://comitepopularsp.wordpress.com

³ Da qual o CAF-USP participará.
Março/abril/maio de 2014

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