Recording Eye

Por Arnaldo Pagano 

 

Vale do Silício, 14 de outubro de um ano não muito distante.

 

– E então, o que me diz? Gostou? Conseguimos lançar ainda neste Natal?

– Não estou entendendo, Howard. Onde está o produto?

– Bem na sua frente, Stephen.

– Isso é algum tipo de brincadeira?

– Não brincaria com isso. Olhe bem aqui – apontou para os olhos – e veja.

– Lentes de contato? Esse é o produto revolucionário que lançaremos neste Natal? Acho melhor você dizer que isso é mesmo uma brincadeira.

– Entendo essa sua reação. Deveria estar esperando um novo tipo de smartphone, ou algum tablet diferente. Nossos padrões de consumo ainda estão baseados na velha distinção entre ser humano e produto.

Stephen continuou com a cara de que não estava entendendo nada. E de fato não estava. Howard se levantou e pegou um leitor biométrico ligado a um cabo USB. Conectou o cabo ao notebook e imprimiu sua digital ao leitor. Em seguida, abriu um programa. Olhou no relógio e preencheu um horário em um campo. Uma tela se abriu. Para surpresa de Stephen, era ele quem aparecia no vídeo.

– Entende agora?

– Você estava me filmando.

Stephen começou a olhar ao redor à procura de alguma câmera.

– Não adianta procurar. Olhe o vídeo com atenção. Você vai descobrir.

Stephen atentou-se ao vídeo. De repente, ficou boquiaberto.

– Esses momentos em que a tela fica toda preta…

– Isso mesmo. Ainda é uma falha nossa. Eu pisco. Todo mundo pisca. É verdade que é uma fração de segundo, mas é uma fração de segundo que perdemos na gravação.

– Não pode ser.

– Por enquanto chamamos de Recording Eye. Mas talvez, com a sua ajuda, principalmente, possamos achar um nome mais forte no mercado.

– Quer dizer que você tem uma câmera nos olhos?

– Quase isso. Meus olhos são uma câmera. Mas você disse bem: olhos. No plural. A captação da visão periférica é fantástica, não acha? Infelizmente ainda não conseguimos tirar o nariz das imagens. Mas ele pouco atrapalha.

– Como é possível?

– 20 anos de estudos e pesquisas. Os melhores desenvolvedores do mercado. Investimento de 50 trilhões de dólares. Eu acho, sinceramente, que a gente pode ainda mais.

– Alguém já está usando?

– A Casa Branca fez uma solicitação. O alto escalão do FBI já está com o produto em mãos.

– Para a polícia isso é incrível.

– Não é para a polícia. Nem para o governo. É para todos. Todos. É claro que não conseguiremos para este Natal, mas em breve o objetivo será atingido.

– Os brasileiros?

– Não, nosso mercado consumidor é muito mais amplo. É o mundo inteiro. Não vê que estamos fazendo uma verdadeira revolução? Mudaremos drasticamente a forma de viver. Não haverá nada no mundo que escape, que não possa ser visto mais de uma vez, que não possa ser exibido, que não esteja registrado. Tudo o que o homem vir será registrado. Ninguém fará mais nada que não será visto. Mesmo que ninguém veja o que você está fazendo, seus olhos estão registrando tudo. Não há escapatória. A Casa Branca não está com o produto em mãos à toa. A ideia é que o Recording Eye vire lei em poucos anos e seja implantado em todos nós e em cada bebê que nascer.

– Meu Deus. Chegamos ao momento em que toda ação humana será gravada. Por diversos ângulos. Pelo ângulo de quem age. Isso é assustador.

– Não é nada assustador. Caminhamos para isso há tempos. Já filmávamos praticamente tudo lá pelo ano de 2013, ou até antes disso, se não me falha a memória. O homem e a câmera já eram um só. Faltavam apenas alguns ajustes.

Stephen parecia não acreditar. Coçava a cabeça e olhava para um vaso ao lado da mesa de Howard, pensando que imagem mais sem graça estaria registrando naquele momento. Em seguida, pensou que teria que acabar com seu hábito de beber no trabalho. Depois, começou a rir discretamente, já que poderia mostrar à sua mulher a cara que ela fazia quando gozava. Mas mudou de expressão rapidamente ao constatar que sua mulher poderia saber que ele a traía. E ele poderia quem sabe ver as imagens de outro homem sobre ela. Gozando. Repentinamente, outro pensamento lhe veio à mente.

– Howard, lembrei de algo importante.

– Sim?

– Ninguém pode saber que estive aqui. Nosso encontro é totalmente sigiloso. Há milhões de dólares em jogo.

– Stephen, meu caro. Eu não posso mais fechar os olhos para isso.

 

Março/abril/maio de 2014

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