Resenha: “A caça”

Por Gabriel Bichir

This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
 Not with a bang but a whimper.

                                                                                                (T.S Eliot)

 

Poucos filmes ilustram tão bem os dizeres de T.S Eliot como “A Caça”, do dinamarquês Thomas Vinterberg. Lucas (Mads Mikkelsen) é um assistente no jardim da infância injustamente acusado de pedofilia por uma menina com sérios problemas edípicos, Klara, que, deparada com a impossibilidade de amar Lucas, decide (ainda que inconscientemente) destruí-lo. Trata-se de uma menina introspectiva e solitária, negligenciada pelos pais e pelo irmão adolescente. Para escapar às discussões e problemas da família, ela recorre a Lucas como um apoio emocional, um pai postiço e presente como nunca tivera.

O filme é o próprio retrato da catástrofe que se abate sobre a vida do protagonista. De uma pequena fagulha, a história fictícia contada pela menina à diretora, sucedem-se episódios cada vez mais desesperadores, que chocam o espectador por seu caráter absurdo e ao mesmo tempo extremamente verossímil. Aquele pequeno vilarejo na Dinamarca, mantendo sua singularidade, faz apelo a um universal que transcende toda circunscrição espacial: poderíamos imaginar a mesma situação desenrolando-se em qualquer grande metrópole.

Toda sociedade cria seus fantasmas, eis o que nos diz Vinterberg. O pedófilo é uma dessas figuras emblemáticas, características de nossa época, uma das tais “partes malditas”, para utilizar a expressão de Bataille. Estas assumem diferentes feições ao longo da história; passando dos loucos para os homossexuais e incontáveis tipos de “perversos”, o que se nota é que a postulação de um Outro surge invariavelmente como efeito colateral de dada ordem social. Sigamos Baudrillard:

Pois o verdadeiro problema, o único problema é: para onde foi o Mal? Para toda a parte; a anamorfose das formas contemporâneas do Mal é infinita. Numa sociedade em que, à força de profilaxia, de extinção das referências naturais, de embranquecimento da violência, de exterminação dos germes e de todas as partes malditas, de cirurgia estética do negativo, só se quer tratar com a gestão calculada e com o discurso do Bem, numa sociedade em que já não há possibilidade de enunciar o Mal, este metamorfoseou-se em todas as formas virais e terroristas que nos obsessionam

O pedófilo é o perverso por excelência de nossa época, a pura encarnação desse Mal que sequer pode ser enunciado. Ele é o responsável por privar a criança de sua inocência, pureza; ele a violenta, a corrompe, ousa atacar o que há de mais sagrado nos direitos humanos: a preservação da infância. A resposta a esse (suposto) ataque jamais poderia ser racional: os habitantes da pacata cidade perseguem e isolam Lucas, privam-no de qualquer contato social, envolvem sua família e tratam-no a socos e pontapés. Enquanto o protagonista permanece impassível em sua convicção, a bestialidade do lado oposto aumenta de tal forma que, em um movimento análogo ao Senhor das Moscas, ele se torna a caça daqueles que um dia foram seus amigos.

Ora, continuaria um pedófilo a aparecer normalmente no supermercado após abusar de uma criança? Iria à igreja em plena noite de natal? Permaneceria na cidade para tentar reestabelecer sua vida? Mas de que valem tais questionamentos, dado que o “pedófilo” está além de qualquer salvação? Ele é a caça e assim deve permanecer. No fim, a aparência de conciliação traz em si mesma a impossibilidade de redenção.

O que resta de fato, muito mais do que a dor, é o ressentimento. Há algo de inominável no ódio sentido pelos cidadãos contra o pobre assistente: mesmo após suas crianças contarem histórias de abuso em um porão que jamais existira, eles persistem vigorosamente em sua caçada. Entendamos bem, não é Lucas que eles querem, não é ele quem caçam. O que buscam é algo vazio, o “lugar-pedófilo”, aquela função que deve ser ocupada pelo Mal, não importa exatamente sob qual forma. E nesse vazio encontram apenas seus próprios medos, em um movimento de projeção que não é e nem poderia ser plenamente individualizado, já que o pedófilo é, antes de tudo, um espectro, fugidio como a mais enganadora das presas.

Não se trata em momento algum de condenar a população por agir de maneira violenta, ou de denunciar a irracionalidade do coletivo enfurecido. O mérito do filme é justamente questionar esse fundo social que gera sua própria parte maldita, como se houvesse um elemento de necessidade em todo o episódio. E é na personagem da diretora da escola que se encarna esse fatalismo, justamente quando ela chama um suposto psicólogo para fazer perguntas à menina. Não importa que Klara negue tudo o que dissera anteriormente logo no começo do interrogatório, nem que diga que só quer “sair para brincar”, o psicólogo insiste em uma pergunta de sim ou não: “foi aqui na escola que aconteceu?”. Após o consentimento hesitante da menina, nada mais havia a ser feito, Lucas já estava condenado e todo o resto se seguiria naturalmente como que por associações mágicas, sem qualquer tipo de evidência.

E é assim, como um gemido, que acaba o mundo.

 

¹ BAUDRILLARD, Jean. A transparência do Mal: ensaio sobre os fenômenos extremos. Campinas: Papirus, 1990.

 

Março/abril/maio de 2014

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: